quinta-feira, dezembro 29, 2005

MARINA

Porque ela.
E faz falta, porque amigo é uma coisa tão riso.
Ela continua igual. E eu senti aquela sensação boa, de novo.
Como DVD, pipoca, guaraná e sorrisos.
Como aquela luz depois da chuva de verão.
Como a nossa casa, depois do cansaço da viagem.
E fomos riso.
E fomos promessas.
E fomos saudade.
Agora eu vou aqui mais uma vez cuidar desse rebanho
Das pequenas, das grandes, das desgarradas
Saudades que me doem como se não houvesse mais nada.
Amigo mesmo
é um pedaço da gente
passeando em outro corpo.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Não sei se você, mas eu. E é urgente falar, arrancar da língua toda essa bola seca e amarga. É terrível você perceber que é. Humano, obtuso por espécie natural, e por definição, parasita. Parasita dos burros, mata o hospedeiro. Mas isso eu já. Mas o que assombra é aquele ângulo mais feio de cada foto. Sabe, onde cada um é porque é. E isso de ser humano já enjoou. Náuseas. Tanta prepotência, tanta arrogância. E tanta ignorância para tudo quanto. Dá ânsia. É, eu também sou, isso também me irrita. Os laços inalienáveis de espécie te amarram forte ao próximo, mas nem por isso. Não posso decidir, mudar o rumo. O rebanho é mais forte, numa direção mais tola. Então sentar e aproveitar cada gole d'água. Cada beijo, cada pássaro, cada amigo, cada chocolate, cada cachorro bobo abanando o rabo, cada pôr-de-sol, cada manga, cada amor, cada gemido, cada secreção, cada flor, cada sensação, cada folha nova, cada suspiro, cada saudade, cada rede na varanda, cada amanhecer, cada lua que mergulha o mar.O ser humano é muito estúpido. Tudo rápido e de uma só vez. Porque.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Dos segredos

HAI
TÃO SIMPLES ASSIM
QUE AO CAIR DA NOITE
ATÉ NÃO VIRA SIM
CAI
HAI
TRANSLÚCIDO EU, CACO
TENTANDO COMPOR
A ALMA EM PEDAÇOS
CAI


quinta-feira, dezembro 22, 2005

Vem. Me acompanha numa taça de silêncio. Eu queria brindar à vida, e tantas coisas lindas, mas as coisas insistem num tom cinza. Assim. Sabe quando as coisas ficam estáticas, como um passo à beira do quase e não. Apenas os supiros, as idéias do que seriam. Sabe, isso aqui está realmente acabando. Uma grande pena, e penso se talvez. Mas não há mais tempo. A atmosfera bebeu mais fumaça do que podia suportar. A terra engoliu mais sujeira e veneno que conseguia e. Ontem à noite, antes de dormir, a Terra conversou comigo. A voz era baixinha, a voz de um doente terminal. Mas tanto carinho nos modos dessa jovem senhora! Ela me disse que estava morrendo. E disse que sentia não poder mais sustentar seus filhos. Não sei, mas aquilo doeu tanto. E não há mais tempo para fazer implantes ou transplantes. Seu corpo se desmancha e seca. Por isso. Senta ao meu lado. Um gole de silêncio em homenagem ao pôr-de-sol borrado de fumaça.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

E eu precisava tanto sentir, mas acontece que eu não sei mais, é como saber e. Tão simplesmente irreal e patético, com os absurdos fingindo horas e as horas jogando cartas. Cartas. Simplesmente como quem toma chá em dias de chuva ou bebe poças na lama da tempestade, que cada um tem sua medida. E costumava ser fácil, quando sentir era, de fato, biológico e não escravizado por um curto circuito de intrincadas sem-razões. Mas se. E ontem, o pôr-de-sol dizia, mas a pele não conseguia absorver. Então. Os olhos gelados e o caminho de casa.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

HAI
Se for por muita sorte
Um amor eterno
Dura até a morte.
CAI.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Por um triz

Balela.

Tantos finais guardados,
Ela sem final feliz.

Quis compor um poema
Livrar-se de um risco
Talvez ser atriz.
Achar um verso amassado
Tomar um sonho emprestado
Ser a mais bela
Meretriz e donzela,
nos sonhos do aprendiz.
Quis talvez o amor,
Grande telenovela
De um mal sem raiz.

Balela.

A vida toda era aquela:
Feijão com arroz, pão com pão
Cansaço no rosto,
Levando bem dentro uma cicatriz:

Vida dela, sem final feliz.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Não pense que sempre foi assim prá que fosse sempre tanto. É certo, doía. Algo sempre. Mas pelo caminho aprende-se a morder os dentes e sorrir alguns absurdos. Porque. Mas por esses tempos um grito muito horrível vinha daqueles velhos porões. Estavam muito cheios, e eu. Eu sabia que teria de voltar lá algum dia, e passar a mão sobre as cabeças de tantas coisas ferozes. Mas acontece que o medo. Então eu tentei de novo, abri a janela e acendi algumas luzes. Os gritos diminuíram, e assim, à luz das idéias, algumas coisas não eram tão feias. Recolhi algumas, cantando adormeci outras. É verdade, algumas vezes tudo se agita, e por um tempo infindável dói como se fosse de novo. Mas tem dia novo lá na frente, eu quero erguer as velas e esperar a direção dos ventos. É que tanto alheio invade e passa derrubando tudo, e fazendo alarde, até sermos novamente gritos, novamente dor. Mas tem o vento, e passa. Então as velas puídas e a sensação de agora.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Indubitavelmente

Levantar mais uma vez as bandeiras cansadas
Comandar um exército de pensamentos
Rumo a uma vitória impossível
Pela chama tênue de um ideal lírico?

Carregar mortos e sustentar feridos
Incendiar os erros e perdoar as voltas
À marcha improvável de um quando sem direção?

E novamente quando sangrar a aurora
Manchando a exatidão do horizonte
Rufar os tambores e brandir as ações
Por um punhado manso de lealdade e intenções?

Eu vou.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Uma noite dessas de Outubro...

Tem um som melancólico o espírito
Quando se parte,
Subjugado por uma realidade angulosa.
Eu vim pelo caminho, pensando
Ao som de um "tec tec" úmido
e esparso no vidro do carro.
As gotas indecisas de chuva
caindo sem graça: "tec tec".
Um TEC mais forte.
O espírito, estilhaçado pelo peso
de um mundo de dentes à mostra.
No portão, a chuva.
Para dentro de casa, as idéias doloridas
A luz acesa que não conforta.
Um sono sem sonhos.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Em fuga

Então é isso?
Eu pàro o carro no acostamento
Busco ansiosa a caneta e o papel
E vocês fogem, riem, se escondem
Negango meus apelos em infantil crueldade?
Coisa de idéia jovem...
Travessura...
Molecagem...
Eu queria um gravador de pensamentos
Que capturasse idéias
Aprisionasse imagens!
Essas idéias todas não mais se esconderiam assim
- Coelhos asssustados-
Na mata densa dos meus pensamentos
Onde mora um lobo faminto chamado esquecimento...

É quase como quando:
O rádio toca aquela canção,
Que faz lembrar que.
E era tão bonita.

Eu sei...

É,
Eu sei que construo escadarias demais
Em qualquer curva dos sonhos
E censuro meus sorrisos na iminência de um quase.
Eu sei de quando a faca e o corte escuro
Com cuidado saboreio cada célula
E em vermelho rebordo a margem - fino traço.
É, eu sei, me fiz estranha.
Estranha em mim, e de frágil calma
Dentro dos meus tanques e dos meus combates.
É assim, dentro do pavor e em carne crua
Quando cravo em tuas costas meus gemidos
Quando escondo dos teus olhos a menina
Quando junto os gestos justos e me entrego:
Meu amor, tua paz, nosso juízo.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Com amor,

...e se sorrindo eu disser deste coração vermelho
que ao teu toque se inflama e me atordoa
urgindo a intenção sem rumo certo?

...talvez da boca, a trama rouca
de uma fome desesperada e sem juízo
te censure, saboreie e se esparrame
prá depois anoitecer acontecido.

... e em teu peito depois, somente tua
enlaçar, desfalecendo nos tecidos
a abissal ternura dos teus dedos.

(* essa também é prá você)

sexta-feira, novembro 25, 2005

Tristeza

-Shhhhh.........fala baixo.
-Mas tá doendo.
-Eu sei. Mas se você não contar, eu também não conto.
-Ela vai acabar descobrindo. Você é incapaz de não se derramar toda.
-Não, eu seguro. Aumento a tensão superficial, efeito bolha de sabão. Ela não vai notar.
-Mas continua doendo e se você ficar aí brilhando, não vai dar. Fico na adrenalina, acelero e ela vai perceber.
-Não agüento.
-Então o jeito vai ser derramar.
-Vai você então. Você vai a galope e em seguida eu salto.
-Não vai me deixar sozinho?
-Nunca.
-Promete?
-Prometo.
(...)
O coração dispara, num apelo violento
E a lágrima precipita-se pelo horizonte dos olhos.
Realmente era dor. Em tudo a ressonância delicada da tristeza.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Agora fica?

Brotaram todas as raízes
Que eu semeei no teu nome...
Eu queria um dia de vento
Prá gritar bem alto
E espantar o teu sofrimento.

terça-feira, novembro 22, 2005

****Minutos*****

Todo dia ela acordava e já cedo
Corria brincar com seus queridos minutos.

Eram uns minutos muito azuis e apressados
Escorregando dos pulsos feito peixes.

Mas faziam cócegas
Faziam rir
Faziam medo
Quando saltavam num reflexo prateado.

Mas todo dia ela seguia a brincar com seus minutos
E bailavam em segredo, fugindo à dominância das horas.

Brincavam de roda.
Apostavam corrida (eles sempre ganhavam).
Cantavam, sonhavam.
Eram doces, até.

Um dia ela tropeçou na bengala das horas
E derramaram-se todos os minutos
Vermelhos, assustados, esparramados
O chão em confusão, e os ponteiros parados.

(*Porque como já dizia o poeta, "há minutos vermelhos correndo em nossas veias...)

segunda-feira, novembro 21, 2005

Um ano

Este era realmente um ano de pernas compridas.
E passadas muuiiittooo largas.

Ele praticamente passou por mim.
E eu continuo aqui feito tonta sentindo o ventinho que ele deslocou.

Era um ano alto. Não consegui ver a cara dele direito.
Apenas sei que foi um desses difíceis. Não foi de muita conversa (tinha pressa).
Sério, compenetrado, ocupado e estressado. Trouxe muitos problemas, resolveu alguns,
não sorriu, passou. Ocupou meu tempo, levou meu tempo, calou meu tempo.

Quer saber? Se tem tanta pressa, pode ir. Um ano novinho vem aí.
Aposto que vai ser mais simpático. Sentar à tarde para uma xícara de chá. E rir.
E responder talvez algumas perguntas. E desdobrar talvez alguns sonhos guardados.
E contar histórias, escrever outras. Redesenhar mensagens nas vidraças e nos sorrisos.

Um ano inteiro prá ser meu amigo. Um ano prá me bordar a memória e a pele. E até.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Sentimento

-Faz assim:
Pega ele pelas orelhas
Segura firme, e acerta o rumo.
Aí manda seguir reto, em frente.

-Parece ser fácil.

-Ahã. Mas às vezes ele dá um pinote,
Te deixa com cara de bobo e poeira na mão.

- Como faz então?

-Ihhh, olha, é preciso um bocado de paciência...
Um sentimento , prá ser domado,
Leva tanto tombo prá descobrir o lado certo
Tanto choro prá descobrir que é deserto
Tudo tanto que a gente pensa perto...
Leva tempo em olhares perdidos
E outro tanto divagando em suspiros;

-Tanto assim?

-Tanto, e mais, e além, que o sentimento,
é um bicho que não se doma,
é um arrepio que cavalga a gente,
quando tudo mais falha:
mas a alma, sente.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Esticar as asas amassadas
Descobrir novos vôos sobre cicatrizes
Um brilho de sol e um cheiro de chuva.

Vôo eriçado procurando o horizonte
Descobrir sonhos novos
Após cada montanha gelada.

Longos caminhos
De uma longa jornada
Iminência de um quase:

A delícia do acaso.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Caça-Sonhos

Gostava de caçar sonhos e alfinetá-losà páginas de um caderno.
Ali estavam seguros. Ali não seriam perdidos. Ou vividos...........

Pelos sonhos nutria fascinação e pavor: como borboletas. Levam
a gente a bordo de suas asas para dentro de um universo novo,
sempre e estranhamente novo. Ainda que repetido. A cada dia o
caderno engrossava. Sonhos tristes. Imóveis. Mortalmente feridos de sutileza....

Os olhos brilhavam dementes quando preenchia uma página. Ínfimas
vitórias contra a inquietude do universo. Caminhava distraído, certa feita.
Ouviu um ruído,viu a sombra, grande, julgou ser um sonho perfeito.

E já era muito tarde quando o pesadelo virou-se para ele,
os olhos muito amarelos e a pequena rede caça sonhos sobre a fonte: faminto,
o pesadelo logo abocanhou-lhe o sono, enquanto se debatia e o caderno ia ao chão.

Sonhos feridos, revoada imperfeita: aos olhos e à fome de um pesadelo que espreita.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Vampira, espero a noite
Para me afogar na tua pele.

Espero a noite
Para atracar em ti minha alma
Jogar as âncoras, dormir em paz.

Entro nos teus olhos
Brinco menina em teu pensamento.
Nada mais me acalma, agora,
A não ser a melodia da tua voz
Pintando amor nos meus ouvidos.
Uma rede embala minha pressa,
teu colo,e a brisa longe que você pensa.

Não leia ao contrário a minha voz.
Não espere minha fuga,
porque é a você que retorno,
E já seguimos há tempos esse caminho
Tão longo.

Não suspeite que te sinto
Amor, menos que ontem:
Pois costuro teu nome, paciente,
Nas tramas do meu destino.

(*Essa é prá você.)

quarta-feira, novembro 09, 2005

Pedro-Pedra-Pássaro

........E nasceu pássaro, o que a ninguém pareceu importar. Chamaram-lhe Pedro. Pedro é pedra. Um pássaro...!
O tempo foi passando, levando os anos de Pedro-pedra-Pássaro, como leva os dos meninos. Vestiram em Pedro não apenas um mome: veio depois o uniforme do colégio (amassando as asas), o uniforme de judô (judô! A ele, que só se ocupava de flores e versos!), o uniforme de menino.
Engaiolaram Pedro no décimo-nono andar de um belo edifício. Gaiola dourada. Pedro olhava o sol arder lá fora e sentia lhe faltar o ar. Os olhos de pedro foram perdendo o azul liberdade, e ganhando a melancolia cinzenta do décimo-nono andar com vista ensolarada para o parque. O parque...
As copas reluziam os afagos do sol gentil de primavera. Era outubro e o vento repetia um convite nos ouvidos de Pedro. Naquele dia, Pedro andou até a janela e deixou o vento entrar e fazer-lhe festa nos cabelos. Pedro sentiu-se pássaro, não pedra, e decidiu voar. Tirou os uniformes vários e ensaiou o mover de asas. Mas as asas de Pedro cresceram sufocadas nos uniformes vários: não puderam voar. E ainda a pedra, pesando seu nome.....Pedro, apenas pedra, afundou no sofá.
A tarde abria a porta e espiava devagar, com uns cabelos muito vermelhos e um jeito preguiçoso. A vista para o parque suspirando segredos. Determinado, Pedro tomou carona num sonho alheio que passava por lá e desceu ao parque. Não podia voar. Encontrou alguns seixos. Descobriu que era pedra, e era divertido com o rio rolar. Foi assim Pedro. Pedro-pedra-pássaro que se tornou Pedro-pedra, desvestiu absurdos e encontrou um lugar.

segunda-feira, novembro 07, 2005

MEU JEITO

Quando pareço ausente, não creias:
hora a hoa meu amor agarra-se aos teus braços,
hora a hora vejo meu desejo revolver teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

(Lya Luft)

sábado, novembro 05, 2005

Lá e cá
Lá e cá
E quem entende essa incerteza dividida?
Procuro um parêntese, para esconder tua calma:
Talvez essim te aconteça dividido.
Tem sempre alguma coisa querendo acontecer explodindo,
Alguma coisa que não quer ser mansa, não quer ser breve.
Quer se derramar, ser mais que, embotar os sentidos, rabiscar o nome.
E do outro lado, mansa, a vida dá duas voltas ao redor de si mesma
Cava um pouco o firmamento, afofa, se ajeita: tão simples.
Tão simples o bom dia, o café da manhã o beijo de café,
a certeza de maisum fim do dia.
E se fosse.
Um dia colado em outro, esticando os olhos, arranhando a lucidez,
Toda aquela noite que encharca o coração e não se aquieta,
Tudo aquilo que dói, sangra, e sangrando reflete, então é possível sentir.
A vida, latejando em cada pesadelo, reclamando cada noite mal dormida,
Os papéis se acumulando, os relógios aflitos, compromissos rejeitados.
O estômago lembrando que é mortal, a boca amarga, o olho seco, afinal.
E se fosse.
A vida se remexe um pouco no meu colo, suspira, estremece:
Talvez o sonho, selvagem, lhe assalte as pálpebras cerradas.
Mas e se fosse?

sexta-feira, novembro 04, 2005

A noite se cala e eu aqui.
Eu nem deveria, mas a noite é enorme,
E tudo dorme, menos o silêncio, que fuma um charuto na varanda.

Eu aqui, a tantas milhas de saber,
Mas tão perto prá sentir.
O que eu posso dizer?
Dos meus pesadelos, você foi o melhor.
Mas não é essa a pulga-insônia que pergunta insistente.

Se ao menos eu pudesse capturar essas palavras borboleteantes
Ordená-las em um gesto, e em uma nota clara
Compreender a busca!

Mas a noite é enorme,
E as palavras inutilmente reconhecem flores pelo caminho.

segunda-feira, outubro 31, 2005

A vida era aquela novelinha: ela (a mocinha), o mocinho, desencontros impossíveis e um amor patético. Patético, mas romântico. Romântico e esquisito. Todos sabiam que ele a amava mais que tudo. Ela desencantava, também sabia, mas sentir que ele a amava, não sentia.
Dia-a-dia a novelinha. Ele cantava, ela sorria, ele sumia, ela chorava, ele aparecia, ela brigava. E assim sucedia. Um belo dia ela terminava. Choravam, ele bebia e cantava. Ela sofria e amargurava. Vencida pela própria fome, voltava: mil borboletas (que só ela via) enquanto se abraçavam. E choravam. Até que um dia......
Um dia ela chegou mais cedo. Não sentou no sofá como era de costume. Não fez pipoca para assistir-se, ela-sua novelinha. Séria, de pé, na sala, tom amargo. Ligou a TV. Tão logo esta se iluminou, mudou o canal. Depois disso foi só chuvisco...

sexta-feira, outubro 28, 2005

Veja por esse lado:
Se eu escrevesse estórias bonitas como você
Seria outro o eu que escrevo.
Mas eu nem me importo de ser assim torta de um lado;
É a lembrança do caminho que me deforma.
Não, não entenda mal, não é triste.
Eu me dissolvi em cada instante
E de cada mergulho trouxe uma flor enroscada nos cabelos:
As cicatrizes contam todas as vidas que me viveram.

E se eu soubesse que era assim, teria crescido menos depressa;

terça-feira, outubro 25, 2005

Para Hoje:


Hoje:
Tentar despir o sol
E entender as asas quebradas.
Abrir o zíper do cinza
Consertar engrenagens do sorriso.

Hoje eu queria entender
Porque o corpo leve do sonho não alça vôo
Porque as asas se partem tão fácil
O que tem dentro do olho
Pra escorrer tanta água?

Porque até logo é risonho
E adeus (que é até mais logo) dói tanto?
Eu queria perguntar à angústia
Porque ela não vai logo daqui
Ou veste outra cor, pinta de azul essa idéia?

Porque tenho tanto medo
E o medo é esse cara pesado
Que se esquece em cima da gente
Como se não fosse amarelo?

Porque fica tudo sem graça
Quando uma estrela se vai
Se nasce outra em seguida
E o brilho não se apaga?

O que é que tem do outro lado
Que a porta abre tão fácil?

segunda-feira, outubro 24, 2005

TRIBUTO

Ele se foi
Eu realmente não entendo
Ou talvez simplesmente não queira.

A saudade fica assim escorrendo
Traçando sulcos, cicatrizes por onde pensa.

Ele se foi.
Não importa mais
A dor acabou para ele.

Talvez uivar a solidão ancestral
De madrugada, nas entranhas do sonho.

Ficam dez afiadas esperanças
Para manter um eco na ausência
Que polvilho aqui e lá.

Eu sigo adiante
Um pouco mais de banda
O coração vai pesado
Pesado desse oco que vai aumentando
A cada vez que um deles se vai.
Talvez um dia pare de doer
Mas não hoje

A saudade se infiltra na alma da gente
Como uma planta que cresce nas frestas da calçada
E vai forçando o concreto
Levantando
Trincando
Vem um oco crescendo no peito
Aquela sensação de não ser
E já era.

Cada vez que parte um
Leva consigo uma fatia minha
Deixa uma superfície de dor
Escorrendo saudade.

Tão triste isso ser assim.
Tão de repente não ser mais a eternidade.
E a saudade absurda de nunca ter sido.

Quem entende?
Eu fiquei com dez esperanças de dentes afiados
Que me rasgam a calma quando vão embora
Uivar distâncias, projetar ternuras.

Isso que eu sinto assim é a dissonância
Entre o que eu sou
E quem éramos.

terça-feira, outubro 18, 2005

Depois de tudo

Depois de tudo
Ficou esse cais deserto
O mar aberto
E meu mastro quebrado
A rosa dos ventos dos meus sonhos
Ganhou o horizonte, bateu asas.

Depois de tudo
Ficou esse campo arado
Sem ser semeado
E a cancela aberta das ilusões.
A chuva que se anunciava doce
Lavou de mim as sensações.

Depois de tudo
Essa fumaça ardida
A calçada encardida
Caminho que levou ao lugar comum.
O concreto embotando os ossos:
Cinza e saudade.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Reflexo numa poça d'horas

Os minutos se desprendendo do relógio:
Leves, secos, vividos...
A iminência de uma primavera que nunca floresce
Na boca um gosto amargo da noite.
Tanto porvir detido em um quase:
Uma quase pedra, tropeço do caminho.

Sem saber rumo vagou ainda um pouco
Idéias brilhantes piscando a todo instante
O ar perfumando-se de quando;

Mas estava tão escuro
E sentia o gelo entrar sob as unhas.
Sabia dos dedos azulados, embora não pudesse vê-los.

Amanhã seria primavera
Mas a noite
A noite enorme não descansava.

Aborrecida, sentou-se. Os minutos secos espalharam-se
Formando leito macio aos pensamentos
Entregou-se.

No sonho, uma noite sem fim,
às vezes sugeria uma estrela.

Quando acordasse.

Um dia seria primavera.
O fim de semana todo esse bicho sentado no estômago
Gelado
Espinhoso
O fim de semana todo uma angústia enrolada na garganta
Apertada
Firme.
O fim de semana todo um porquê sem reflexo
O fim de semana todo essa falta de nexo
Eu ainda não entendo porque tinha que ser com você
Eu nunca entendo porque vocês tem que sofrer
Tanto
Relembro o olhar de socorro
E a reafirmação da presença
Mas é uma esperança com pulso tão fraco
E esse bicho continua aqui sentado no meu estômago
Pesando como se não fosse acabar nunca.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Hoje eu pareço ter cem toneladas
Caminhando à uma gravidade absurda
Carregando em mim todo o peso de gritos represados
Hoje o dia parece claro, mas é cinza e ameaça doer.
Hoje eu queria teu colo e o silêncio de uma abraço
Mas o mundo vem aos berros bater na porta
E me dou conta que já é tarde
O sono que se atrasou ontem
Quer puxar conversa
Mas não posso
Fica a vida
de novo
prá depois.
Agora o trabalho.
Não me venha com esse jeito arrogante
De quem sabe muito
Você não sabe nada
Nem use essa voz doce
Eu conheço o seu tom
E nunca acreditei nessa máscara

Não tente me comprar
Você não conhece os valores
Com que eu trabalho

Você não sabe das pessoas
Você não sabe da amizade
Você não sabe o que é lealdade

Não ponha a mão no meu ombro
Nem me diga ser sua amiga
Você não sabe de nada
Falsidade não constrói uma vida.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Isso de hoje.....

Isso de hoje traz alguma verdade machucada. Isso der ser, e a realidade, realmente são coisas que estão doendo, eu nem sei por que esse uivo que vem das coisas distantes que eu vivo incomoda tanto. Mas incomoda. O doer de outras dores cai tão fundo aqui dentro, pesa tanto o estômago, parece aquela sensação de quando a gente precisa respirar e não consegue, e todo o ar que entra é sempre muito pouco. Eu fico aqui sentada digitando essas tolices que ficam mordendo as minhas solas, a vida fica se derretendo em flores na minha porta, mas eu não consigo estar feliz em vê-la. Eu devo ser mesmo uma pessoa muito boba, mas vendo tudo isso aqui eu vou murchando como essa florzinha aqui de quem eu me esqueci. Acho que foi o mesmo comigo. Eu me esqueci...

Contra o tempo....


Um lugar onde eu possa descer as cortinas sobre a paisagem que passa,
Um lugar onde eu possa retirar os dentes do relógio mergulhados nas veias
Estancar as horas que correm, delicadas.

Contratempos idos, contratempos vindos. Como um sussurro aliviando a sincronia da rotina, como um grito que se perde em meio a tantos, como uma tentativa desesperada de sintonizar este lamento.

Contra o tempo eis que inicio uma jornada, contra o tempo, seus moinhos e muradas. Contratempos dessa longa caminhada, as páginas vão espalhar notícias de distâncias raras.

Este é apenas mais um caminho, partindo de dentro de um emaranhado de idéias
E se perdendo dentro de um emaranhado de partidas.

terça-feira, outubro 11, 2005

Chuva. Aqui dentro uma tempestade, fora eu chovo. Vertical como a chuva. Descendo, sem escolher onde, seguindo, seguindo, passando sobre os rostos, sem nome, exaltando-se, plena, encolhendo as gotas, encontrando frestas, abrigando-se nos sótãos, na poeira, gotejando escura e triste: aqui, ali e lá. Forma poças em lugares estranhos: formamos, movidas por forças, muitas gravidades além de um tempo que não para. Emboloramos livros, fotografias, sorrisos perdidos, sonhos esboçados, previsões para um futuro que se esqueceu de ser. Provocamos o medo, o sono, o frio, a insônia. Ao insistir aborrecemos, desistimos e por fim esquecemos. Retorno chuva, os passos cansados pra casa, levando nos bolsos oceanos inexplorados. Os olhos rebrilham, na sincronia apressada das marés. Amanhã quem sabe, com mais tempo.

sexta-feira, outubro 07, 2005

O sol não se arriscou hoje pelas minhas frestas, mas não faz mal. O cinza é claro, a as árvores elevam as mãos ao céu, buscando as mãos de Deus. As árvores. Ontem gemiam uma história triste sobre seiva e raízes. Hoje tremulam as folhas de um jeito estranho: devem saber. Devem saber disso que me cortou o ar por alguns instantes, dessa pausa tensa que se abateu sobre as horas, pousada sobre aquele relógio com uns olhos grandes de abutre. Permaneceu ali uns dias, atraída pelo cheiro mórbido que se desprendia da angústia. Mas hoje eu abri a porta e não estava mais lá. Ainda posso sentir o cheiro, sentir alguma coisa de sua presença, a grama amassada sob a sua lembrança. Mas hoje eu não sei. Quero ir por aí com a certeza de voltar e simplesmente sabê-los. O pai, a mãe, o irmão e o cronópio (um velho novo amigo). Cão, casa, flores na janela e um sorriso de boas vindas.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Quotidianamente o dia me vive. Me respira, movimenta as mãos, sorriso automático de bom dia. Um fantoche. Um fantoche atado e amordaçado. Dopado, para que se torne menos feroz. Quando abri a porta pela manhã a tristeza tinha encharcado o tapete. Por toda parte pude perceber seu rastro úmido. E ainda não sei como o ontem terminou: o capítulo de hoje veio sem o intervalo. Quase assim por distração: hoje amanheci sem querer. Era pra ser só amanhã.

terça-feira, outubro 04, 2005

Mastigada e cuspida pelo dia. Tragada pela chuva, tragos largos, verticais. Incapaz de resistir à insônia, suas longas mãos sedutoras. Dentro, o espírito tilintando com delicadeza, quebrado. A noite enorme que não desce, enroscada na garganta como um grande comprimido amargo. Tento dominar o asco: água, como se lavasse a revolta. Água, como se diluísse o caos, re-hidratasse a face marcada de sal.Desânimo para seguir adiante. Decepção. O mundo nunca foi tão pequeno. O ser humano, só uma bola fedida de carne, mentira e arrogâncias. A fé, diluída na chuva escura, mancha a calçada, desce pelo bueiro. Dentro de casa a luz, a realidade dolorida das coisas, o colchão faminto: comprimido e sono. Sem sonhos.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Nostalgia em dois tempos

I- Um
Pois é. É um tempo louco que vai aí fora. E pelo que vi estou de volta, novamente sentada nas minhas varandas com aquela pressa de não-sei-o-quê, ansiosa pela chegada de algo como uma menina que espera ansiosa pelo papai Noel nas varandas de Domingo. Eu realmente espero, vendo daqui, que você tenha guardado na tua pele o suficiente de mim, pra você não sentir falta até eu voltar. Mas eu volto, de tempos em tempos eu passeio por aqui, venho ver as janelas fechadas e respirar o pó da mobília. Antigamente era menor minha coleção de dores. Mas a de sorrisos também cresceu, e alguns novos exemplares bastante interessantes figuram agora entre os meus pertences. Esse gosto antigo de memória colhido nos pés da infância que se espalharam por aqui tem um gosto ausente de já fui. Interessante como o pôr-do-sol desenha figuras coloridas no ar para confundir a realidade das coisas. Eu costumava vir mais aqui. Mas é tanto corre corre, tanto barulho lá fora, e o telefone sempre tocando tanto, e as coisas com aquelas expressões angustiadas de quem quer ser agora que eu perco as deixas e meu canto azul ganha poeira. Silencioso aqui. E tudo agora faz tanto tempo. Entendo por que há tempo eu não vinha; a confusão cinza-colorida instalada aqui quer tempo, muito tempo, e alguém bate à porta, e as coisas angustiadas solicitam minha presença, e o turbilhão me arrasta e o cinza-colorido agarrado em minhas pernas, e o ficar ou ir, tudo urgente, tudo agora, resta partir. Se der tempo, um dia, eu volto.

II- Dois
Acabou mais um mês. Tentei segurar ele pela perninha, mas ele soltou a perna e saiu pulando num pé só. Fiquei aqui com essa perninha de mês se mexendo na minha mão. Parece um rabo de lagartixa. O ano nem se fala, não vou tentar segurar. Vai que ele tropeça na saída, e com todo esse tamanho, eu já era. O tempo todo foge de mim. Corre, está sempre com pressa, e eu nunca sei onde vai ou porque tem tanta pressa. Nunca parou para tomar um chá. A mesa ficou arrumada na avenida da lembrança: tudo cheio de pó. Fico me sentindo idiota aqui, tentando passar a perna na história, para um dedinho de prosa só; não adianta. A vida segue, embora eu não tenha mais pressa, à velocidade crescente e não para: apenas derruba sementes.

“Antes que a realidade desse dia
Te conceba, te cuspa
Te misture às cinzas de hoje
Te triture, mastigue, engula e vomite:
Me dê um beijo de bom dia?”