quinta-feira, setembro 29, 2005

Nostalgia em dois tempos

I- Um
Pois é. É um tempo louco que vai aí fora. E pelo que vi estou de volta, novamente sentada nas minhas varandas com aquela pressa de não-sei-o-quê, ansiosa pela chegada de algo como uma menina que espera ansiosa pelo papai Noel nas varandas de Domingo. Eu realmente espero, vendo daqui, que você tenha guardado na tua pele o suficiente de mim, pra você não sentir falta até eu voltar. Mas eu volto, de tempos em tempos eu passeio por aqui, venho ver as janelas fechadas e respirar o pó da mobília. Antigamente era menor minha coleção de dores. Mas a de sorrisos também cresceu, e alguns novos exemplares bastante interessantes figuram agora entre os meus pertences. Esse gosto antigo de memória colhido nos pés da infância que se espalharam por aqui tem um gosto ausente de já fui. Interessante como o pôr-do-sol desenha figuras coloridas no ar para confundir a realidade das coisas. Eu costumava vir mais aqui. Mas é tanto corre corre, tanto barulho lá fora, e o telefone sempre tocando tanto, e as coisas com aquelas expressões angustiadas de quem quer ser agora que eu perco as deixas e meu canto azul ganha poeira. Silencioso aqui. E tudo agora faz tanto tempo. Entendo por que há tempo eu não vinha; a confusão cinza-colorida instalada aqui quer tempo, muito tempo, e alguém bate à porta, e as coisas angustiadas solicitam minha presença, e o turbilhão me arrasta e o cinza-colorido agarrado em minhas pernas, e o ficar ou ir, tudo urgente, tudo agora, resta partir. Se der tempo, um dia, eu volto.

II- Dois
Acabou mais um mês. Tentei segurar ele pela perninha, mas ele soltou a perna e saiu pulando num pé só. Fiquei aqui com essa perninha de mês se mexendo na minha mão. Parece um rabo de lagartixa. O ano nem se fala, não vou tentar segurar. Vai que ele tropeça na saída, e com todo esse tamanho, eu já era. O tempo todo foge de mim. Corre, está sempre com pressa, e eu nunca sei onde vai ou porque tem tanta pressa. Nunca parou para tomar um chá. A mesa ficou arrumada na avenida da lembrança: tudo cheio de pó. Fico me sentindo idiota aqui, tentando passar a perna na história, para um dedinho de prosa só; não adianta. A vida segue, embora eu não tenha mais pressa, à velocidade crescente e não para: apenas derruba sementes.

“Antes que a realidade desse dia
Te conceba, te cuspa
Te misture às cinzas de hoje
Te triture, mastigue, engula e vomite:
Me dê um beijo de bom dia?”

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