segunda-feira, outubro 31, 2005

A vida era aquela novelinha: ela (a mocinha), o mocinho, desencontros impossíveis e um amor patético. Patético, mas romântico. Romântico e esquisito. Todos sabiam que ele a amava mais que tudo. Ela desencantava, também sabia, mas sentir que ele a amava, não sentia.
Dia-a-dia a novelinha. Ele cantava, ela sorria, ele sumia, ela chorava, ele aparecia, ela brigava. E assim sucedia. Um belo dia ela terminava. Choravam, ele bebia e cantava. Ela sofria e amargurava. Vencida pela própria fome, voltava: mil borboletas (que só ela via) enquanto se abraçavam. E choravam. Até que um dia......
Um dia ela chegou mais cedo. Não sentou no sofá como era de costume. Não fez pipoca para assistir-se, ela-sua novelinha. Séria, de pé, na sala, tom amargo. Ligou a TV. Tão logo esta se iluminou, mudou o canal. Depois disso foi só chuvisco...

sexta-feira, outubro 28, 2005

Veja por esse lado:
Se eu escrevesse estórias bonitas como você
Seria outro o eu que escrevo.
Mas eu nem me importo de ser assim torta de um lado;
É a lembrança do caminho que me deforma.
Não, não entenda mal, não é triste.
Eu me dissolvi em cada instante
E de cada mergulho trouxe uma flor enroscada nos cabelos:
As cicatrizes contam todas as vidas que me viveram.

E se eu soubesse que era assim, teria crescido menos depressa;

terça-feira, outubro 25, 2005

Para Hoje:


Hoje:
Tentar despir o sol
E entender as asas quebradas.
Abrir o zíper do cinza
Consertar engrenagens do sorriso.

Hoje eu queria entender
Porque o corpo leve do sonho não alça vôo
Porque as asas se partem tão fácil
O que tem dentro do olho
Pra escorrer tanta água?

Porque até logo é risonho
E adeus (que é até mais logo) dói tanto?
Eu queria perguntar à angústia
Porque ela não vai logo daqui
Ou veste outra cor, pinta de azul essa idéia?

Porque tenho tanto medo
E o medo é esse cara pesado
Que se esquece em cima da gente
Como se não fosse amarelo?

Porque fica tudo sem graça
Quando uma estrela se vai
Se nasce outra em seguida
E o brilho não se apaga?

O que é que tem do outro lado
Que a porta abre tão fácil?

segunda-feira, outubro 24, 2005

TRIBUTO

Ele se foi
Eu realmente não entendo
Ou talvez simplesmente não queira.

A saudade fica assim escorrendo
Traçando sulcos, cicatrizes por onde pensa.

Ele se foi.
Não importa mais
A dor acabou para ele.

Talvez uivar a solidão ancestral
De madrugada, nas entranhas do sonho.

Ficam dez afiadas esperanças
Para manter um eco na ausência
Que polvilho aqui e lá.

Eu sigo adiante
Um pouco mais de banda
O coração vai pesado
Pesado desse oco que vai aumentando
A cada vez que um deles se vai.
Talvez um dia pare de doer
Mas não hoje

A saudade se infiltra na alma da gente
Como uma planta que cresce nas frestas da calçada
E vai forçando o concreto
Levantando
Trincando
Vem um oco crescendo no peito
Aquela sensação de não ser
E já era.

Cada vez que parte um
Leva consigo uma fatia minha
Deixa uma superfície de dor
Escorrendo saudade.

Tão triste isso ser assim.
Tão de repente não ser mais a eternidade.
E a saudade absurda de nunca ter sido.

Quem entende?
Eu fiquei com dez esperanças de dentes afiados
Que me rasgam a calma quando vão embora
Uivar distâncias, projetar ternuras.

Isso que eu sinto assim é a dissonância
Entre o que eu sou
E quem éramos.

terça-feira, outubro 18, 2005

Depois de tudo

Depois de tudo
Ficou esse cais deserto
O mar aberto
E meu mastro quebrado
A rosa dos ventos dos meus sonhos
Ganhou o horizonte, bateu asas.

Depois de tudo
Ficou esse campo arado
Sem ser semeado
E a cancela aberta das ilusões.
A chuva que se anunciava doce
Lavou de mim as sensações.

Depois de tudo
Essa fumaça ardida
A calçada encardida
Caminho que levou ao lugar comum.
O concreto embotando os ossos:
Cinza e saudade.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Reflexo numa poça d'horas

Os minutos se desprendendo do relógio:
Leves, secos, vividos...
A iminência de uma primavera que nunca floresce
Na boca um gosto amargo da noite.
Tanto porvir detido em um quase:
Uma quase pedra, tropeço do caminho.

Sem saber rumo vagou ainda um pouco
Idéias brilhantes piscando a todo instante
O ar perfumando-se de quando;

Mas estava tão escuro
E sentia o gelo entrar sob as unhas.
Sabia dos dedos azulados, embora não pudesse vê-los.

Amanhã seria primavera
Mas a noite
A noite enorme não descansava.

Aborrecida, sentou-se. Os minutos secos espalharam-se
Formando leito macio aos pensamentos
Entregou-se.

No sonho, uma noite sem fim,
às vezes sugeria uma estrela.

Quando acordasse.

Um dia seria primavera.
O fim de semana todo esse bicho sentado no estômago
Gelado
Espinhoso
O fim de semana todo uma angústia enrolada na garganta
Apertada
Firme.
O fim de semana todo um porquê sem reflexo
O fim de semana todo essa falta de nexo
Eu ainda não entendo porque tinha que ser com você
Eu nunca entendo porque vocês tem que sofrer
Tanto
Relembro o olhar de socorro
E a reafirmação da presença
Mas é uma esperança com pulso tão fraco
E esse bicho continua aqui sentado no meu estômago
Pesando como se não fosse acabar nunca.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Hoje eu pareço ter cem toneladas
Caminhando à uma gravidade absurda
Carregando em mim todo o peso de gritos represados
Hoje o dia parece claro, mas é cinza e ameaça doer.
Hoje eu queria teu colo e o silêncio de uma abraço
Mas o mundo vem aos berros bater na porta
E me dou conta que já é tarde
O sono que se atrasou ontem
Quer puxar conversa
Mas não posso
Fica a vida
de novo
prá depois.
Agora o trabalho.
Não me venha com esse jeito arrogante
De quem sabe muito
Você não sabe nada
Nem use essa voz doce
Eu conheço o seu tom
E nunca acreditei nessa máscara

Não tente me comprar
Você não conhece os valores
Com que eu trabalho

Você não sabe das pessoas
Você não sabe da amizade
Você não sabe o que é lealdade

Não ponha a mão no meu ombro
Nem me diga ser sua amiga
Você não sabe de nada
Falsidade não constrói uma vida.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Isso de hoje.....

Isso de hoje traz alguma verdade machucada. Isso der ser, e a realidade, realmente são coisas que estão doendo, eu nem sei por que esse uivo que vem das coisas distantes que eu vivo incomoda tanto. Mas incomoda. O doer de outras dores cai tão fundo aqui dentro, pesa tanto o estômago, parece aquela sensação de quando a gente precisa respirar e não consegue, e todo o ar que entra é sempre muito pouco. Eu fico aqui sentada digitando essas tolices que ficam mordendo as minhas solas, a vida fica se derretendo em flores na minha porta, mas eu não consigo estar feliz em vê-la. Eu devo ser mesmo uma pessoa muito boba, mas vendo tudo isso aqui eu vou murchando como essa florzinha aqui de quem eu me esqueci. Acho que foi o mesmo comigo. Eu me esqueci...

Contra o tempo....


Um lugar onde eu possa descer as cortinas sobre a paisagem que passa,
Um lugar onde eu possa retirar os dentes do relógio mergulhados nas veias
Estancar as horas que correm, delicadas.

Contratempos idos, contratempos vindos. Como um sussurro aliviando a sincronia da rotina, como um grito que se perde em meio a tantos, como uma tentativa desesperada de sintonizar este lamento.

Contra o tempo eis que inicio uma jornada, contra o tempo, seus moinhos e muradas. Contratempos dessa longa caminhada, as páginas vão espalhar notícias de distâncias raras.

Este é apenas mais um caminho, partindo de dentro de um emaranhado de idéias
E se perdendo dentro de um emaranhado de partidas.

terça-feira, outubro 11, 2005

Chuva. Aqui dentro uma tempestade, fora eu chovo. Vertical como a chuva. Descendo, sem escolher onde, seguindo, seguindo, passando sobre os rostos, sem nome, exaltando-se, plena, encolhendo as gotas, encontrando frestas, abrigando-se nos sótãos, na poeira, gotejando escura e triste: aqui, ali e lá. Forma poças em lugares estranhos: formamos, movidas por forças, muitas gravidades além de um tempo que não para. Emboloramos livros, fotografias, sorrisos perdidos, sonhos esboçados, previsões para um futuro que se esqueceu de ser. Provocamos o medo, o sono, o frio, a insônia. Ao insistir aborrecemos, desistimos e por fim esquecemos. Retorno chuva, os passos cansados pra casa, levando nos bolsos oceanos inexplorados. Os olhos rebrilham, na sincronia apressada das marés. Amanhã quem sabe, com mais tempo.

sexta-feira, outubro 07, 2005

O sol não se arriscou hoje pelas minhas frestas, mas não faz mal. O cinza é claro, a as árvores elevam as mãos ao céu, buscando as mãos de Deus. As árvores. Ontem gemiam uma história triste sobre seiva e raízes. Hoje tremulam as folhas de um jeito estranho: devem saber. Devem saber disso que me cortou o ar por alguns instantes, dessa pausa tensa que se abateu sobre as horas, pousada sobre aquele relógio com uns olhos grandes de abutre. Permaneceu ali uns dias, atraída pelo cheiro mórbido que se desprendia da angústia. Mas hoje eu abri a porta e não estava mais lá. Ainda posso sentir o cheiro, sentir alguma coisa de sua presença, a grama amassada sob a sua lembrança. Mas hoje eu não sei. Quero ir por aí com a certeza de voltar e simplesmente sabê-los. O pai, a mãe, o irmão e o cronópio (um velho novo amigo). Cão, casa, flores na janela e um sorriso de boas vindas.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Quotidianamente o dia me vive. Me respira, movimenta as mãos, sorriso automático de bom dia. Um fantoche. Um fantoche atado e amordaçado. Dopado, para que se torne menos feroz. Quando abri a porta pela manhã a tristeza tinha encharcado o tapete. Por toda parte pude perceber seu rastro úmido. E ainda não sei como o ontem terminou: o capítulo de hoje veio sem o intervalo. Quase assim por distração: hoje amanheci sem querer. Era pra ser só amanhã.

terça-feira, outubro 04, 2005

Mastigada e cuspida pelo dia. Tragada pela chuva, tragos largos, verticais. Incapaz de resistir à insônia, suas longas mãos sedutoras. Dentro, o espírito tilintando com delicadeza, quebrado. A noite enorme que não desce, enroscada na garganta como um grande comprimido amargo. Tento dominar o asco: água, como se lavasse a revolta. Água, como se diluísse o caos, re-hidratasse a face marcada de sal.Desânimo para seguir adiante. Decepção. O mundo nunca foi tão pequeno. O ser humano, só uma bola fedida de carne, mentira e arrogâncias. A fé, diluída na chuva escura, mancha a calçada, desce pelo bueiro. Dentro de casa a luz, a realidade dolorida das coisas, o colchão faminto: comprimido e sono. Sem sonhos.