quarta-feira, novembro 30, 2005

Em fuga

Então é isso?
Eu pàro o carro no acostamento
Busco ansiosa a caneta e o papel
E vocês fogem, riem, se escondem
Negango meus apelos em infantil crueldade?
Coisa de idéia jovem...
Travessura...
Molecagem...
Eu queria um gravador de pensamentos
Que capturasse idéias
Aprisionasse imagens!
Essas idéias todas não mais se esconderiam assim
- Coelhos asssustados-
Na mata densa dos meus pensamentos
Onde mora um lobo faminto chamado esquecimento...

É quase como quando:
O rádio toca aquela canção,
Que faz lembrar que.
E era tão bonita.

Eu sei...

É,
Eu sei que construo escadarias demais
Em qualquer curva dos sonhos
E censuro meus sorrisos na iminência de um quase.
Eu sei de quando a faca e o corte escuro
Com cuidado saboreio cada célula
E em vermelho rebordo a margem - fino traço.
É, eu sei, me fiz estranha.
Estranha em mim, e de frágil calma
Dentro dos meus tanques e dos meus combates.
É assim, dentro do pavor e em carne crua
Quando cravo em tuas costas meus gemidos
Quando escondo dos teus olhos a menina
Quando junto os gestos justos e me entrego:
Meu amor, tua paz, nosso juízo.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Com amor,

...e se sorrindo eu disser deste coração vermelho
que ao teu toque se inflama e me atordoa
urgindo a intenção sem rumo certo?

...talvez da boca, a trama rouca
de uma fome desesperada e sem juízo
te censure, saboreie e se esparrame
prá depois anoitecer acontecido.

... e em teu peito depois, somente tua
enlaçar, desfalecendo nos tecidos
a abissal ternura dos teus dedos.

(* essa também é prá você)

sexta-feira, novembro 25, 2005

Tristeza

-Shhhhh.........fala baixo.
-Mas tá doendo.
-Eu sei. Mas se você não contar, eu também não conto.
-Ela vai acabar descobrindo. Você é incapaz de não se derramar toda.
-Não, eu seguro. Aumento a tensão superficial, efeito bolha de sabão. Ela não vai notar.
-Mas continua doendo e se você ficar aí brilhando, não vai dar. Fico na adrenalina, acelero e ela vai perceber.
-Não agüento.
-Então o jeito vai ser derramar.
-Vai você então. Você vai a galope e em seguida eu salto.
-Não vai me deixar sozinho?
-Nunca.
-Promete?
-Prometo.
(...)
O coração dispara, num apelo violento
E a lágrima precipita-se pelo horizonte dos olhos.
Realmente era dor. Em tudo a ressonância delicada da tristeza.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Agora fica?

Brotaram todas as raízes
Que eu semeei no teu nome...
Eu queria um dia de vento
Prá gritar bem alto
E espantar o teu sofrimento.

terça-feira, novembro 22, 2005

****Minutos*****

Todo dia ela acordava e já cedo
Corria brincar com seus queridos minutos.

Eram uns minutos muito azuis e apressados
Escorregando dos pulsos feito peixes.

Mas faziam cócegas
Faziam rir
Faziam medo
Quando saltavam num reflexo prateado.

Mas todo dia ela seguia a brincar com seus minutos
E bailavam em segredo, fugindo à dominância das horas.

Brincavam de roda.
Apostavam corrida (eles sempre ganhavam).
Cantavam, sonhavam.
Eram doces, até.

Um dia ela tropeçou na bengala das horas
E derramaram-se todos os minutos
Vermelhos, assustados, esparramados
O chão em confusão, e os ponteiros parados.

(*Porque como já dizia o poeta, "há minutos vermelhos correndo em nossas veias...)

segunda-feira, novembro 21, 2005

Um ano

Este era realmente um ano de pernas compridas.
E passadas muuiiittooo largas.

Ele praticamente passou por mim.
E eu continuo aqui feito tonta sentindo o ventinho que ele deslocou.

Era um ano alto. Não consegui ver a cara dele direito.
Apenas sei que foi um desses difíceis. Não foi de muita conversa (tinha pressa).
Sério, compenetrado, ocupado e estressado. Trouxe muitos problemas, resolveu alguns,
não sorriu, passou. Ocupou meu tempo, levou meu tempo, calou meu tempo.

Quer saber? Se tem tanta pressa, pode ir. Um ano novinho vem aí.
Aposto que vai ser mais simpático. Sentar à tarde para uma xícara de chá. E rir.
E responder talvez algumas perguntas. E desdobrar talvez alguns sonhos guardados.
E contar histórias, escrever outras. Redesenhar mensagens nas vidraças e nos sorrisos.

Um ano inteiro prá ser meu amigo. Um ano prá me bordar a memória e a pele. E até.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Sentimento

-Faz assim:
Pega ele pelas orelhas
Segura firme, e acerta o rumo.
Aí manda seguir reto, em frente.

-Parece ser fácil.

-Ahã. Mas às vezes ele dá um pinote,
Te deixa com cara de bobo e poeira na mão.

- Como faz então?

-Ihhh, olha, é preciso um bocado de paciência...
Um sentimento , prá ser domado,
Leva tanto tombo prá descobrir o lado certo
Tanto choro prá descobrir que é deserto
Tudo tanto que a gente pensa perto...
Leva tempo em olhares perdidos
E outro tanto divagando em suspiros;

-Tanto assim?

-Tanto, e mais, e além, que o sentimento,
é um bicho que não se doma,
é um arrepio que cavalga a gente,
quando tudo mais falha:
mas a alma, sente.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Esticar as asas amassadas
Descobrir novos vôos sobre cicatrizes
Um brilho de sol e um cheiro de chuva.

Vôo eriçado procurando o horizonte
Descobrir sonhos novos
Após cada montanha gelada.

Longos caminhos
De uma longa jornada
Iminência de um quase:

A delícia do acaso.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Caça-Sonhos

Gostava de caçar sonhos e alfinetá-losà páginas de um caderno.
Ali estavam seguros. Ali não seriam perdidos. Ou vividos...........

Pelos sonhos nutria fascinação e pavor: como borboletas. Levam
a gente a bordo de suas asas para dentro de um universo novo,
sempre e estranhamente novo. Ainda que repetido. A cada dia o
caderno engrossava. Sonhos tristes. Imóveis. Mortalmente feridos de sutileza....

Os olhos brilhavam dementes quando preenchia uma página. Ínfimas
vitórias contra a inquietude do universo. Caminhava distraído, certa feita.
Ouviu um ruído,viu a sombra, grande, julgou ser um sonho perfeito.

E já era muito tarde quando o pesadelo virou-se para ele,
os olhos muito amarelos e a pequena rede caça sonhos sobre a fonte: faminto,
o pesadelo logo abocanhou-lhe o sono, enquanto se debatia e o caderno ia ao chão.

Sonhos feridos, revoada imperfeita: aos olhos e à fome de um pesadelo que espreita.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Vampira, espero a noite
Para me afogar na tua pele.

Espero a noite
Para atracar em ti minha alma
Jogar as âncoras, dormir em paz.

Entro nos teus olhos
Brinco menina em teu pensamento.
Nada mais me acalma, agora,
A não ser a melodia da tua voz
Pintando amor nos meus ouvidos.
Uma rede embala minha pressa,
teu colo,e a brisa longe que você pensa.

Não leia ao contrário a minha voz.
Não espere minha fuga,
porque é a você que retorno,
E já seguimos há tempos esse caminho
Tão longo.

Não suspeite que te sinto
Amor, menos que ontem:
Pois costuro teu nome, paciente,
Nas tramas do meu destino.

(*Essa é prá você.)

quarta-feira, novembro 09, 2005

Pedro-Pedra-Pássaro

........E nasceu pássaro, o que a ninguém pareceu importar. Chamaram-lhe Pedro. Pedro é pedra. Um pássaro...!
O tempo foi passando, levando os anos de Pedro-pedra-Pássaro, como leva os dos meninos. Vestiram em Pedro não apenas um mome: veio depois o uniforme do colégio (amassando as asas), o uniforme de judô (judô! A ele, que só se ocupava de flores e versos!), o uniforme de menino.
Engaiolaram Pedro no décimo-nono andar de um belo edifício. Gaiola dourada. Pedro olhava o sol arder lá fora e sentia lhe faltar o ar. Os olhos de pedro foram perdendo o azul liberdade, e ganhando a melancolia cinzenta do décimo-nono andar com vista ensolarada para o parque. O parque...
As copas reluziam os afagos do sol gentil de primavera. Era outubro e o vento repetia um convite nos ouvidos de Pedro. Naquele dia, Pedro andou até a janela e deixou o vento entrar e fazer-lhe festa nos cabelos. Pedro sentiu-se pássaro, não pedra, e decidiu voar. Tirou os uniformes vários e ensaiou o mover de asas. Mas as asas de Pedro cresceram sufocadas nos uniformes vários: não puderam voar. E ainda a pedra, pesando seu nome.....Pedro, apenas pedra, afundou no sofá.
A tarde abria a porta e espiava devagar, com uns cabelos muito vermelhos e um jeito preguiçoso. A vista para o parque suspirando segredos. Determinado, Pedro tomou carona num sonho alheio que passava por lá e desceu ao parque. Não podia voar. Encontrou alguns seixos. Descobriu que era pedra, e era divertido com o rio rolar. Foi assim Pedro. Pedro-pedra-pássaro que se tornou Pedro-pedra, desvestiu absurdos e encontrou um lugar.

segunda-feira, novembro 07, 2005

MEU JEITO

Quando pareço ausente, não creias:
hora a hoa meu amor agarra-se aos teus braços,
hora a hora vejo meu desejo revolver teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

(Lya Luft)

sábado, novembro 05, 2005

Lá e cá
Lá e cá
E quem entende essa incerteza dividida?
Procuro um parêntese, para esconder tua calma:
Talvez essim te aconteça dividido.
Tem sempre alguma coisa querendo acontecer explodindo,
Alguma coisa que não quer ser mansa, não quer ser breve.
Quer se derramar, ser mais que, embotar os sentidos, rabiscar o nome.
E do outro lado, mansa, a vida dá duas voltas ao redor de si mesma
Cava um pouco o firmamento, afofa, se ajeita: tão simples.
Tão simples o bom dia, o café da manhã o beijo de café,
a certeza de maisum fim do dia.
E se fosse.
Um dia colado em outro, esticando os olhos, arranhando a lucidez,
Toda aquela noite que encharca o coração e não se aquieta,
Tudo aquilo que dói, sangra, e sangrando reflete, então é possível sentir.
A vida, latejando em cada pesadelo, reclamando cada noite mal dormida,
Os papéis se acumulando, os relógios aflitos, compromissos rejeitados.
O estômago lembrando que é mortal, a boca amarga, o olho seco, afinal.
E se fosse.
A vida se remexe um pouco no meu colo, suspira, estremece:
Talvez o sonho, selvagem, lhe assalte as pálpebras cerradas.
Mas e se fosse?

sexta-feira, novembro 04, 2005

A noite se cala e eu aqui.
Eu nem deveria, mas a noite é enorme,
E tudo dorme, menos o silêncio, que fuma um charuto na varanda.

Eu aqui, a tantas milhas de saber,
Mas tão perto prá sentir.
O que eu posso dizer?
Dos meus pesadelos, você foi o melhor.
Mas não é essa a pulga-insônia que pergunta insistente.

Se ao menos eu pudesse capturar essas palavras borboleteantes
Ordená-las em um gesto, e em uma nota clara
Compreender a busca!

Mas a noite é enorme,
E as palavras inutilmente reconhecem flores pelo caminho.