quinta-feira, dezembro 29, 2005

MARINA

Porque ela.
E faz falta, porque amigo é uma coisa tão riso.
Ela continua igual. E eu senti aquela sensação boa, de novo.
Como DVD, pipoca, guaraná e sorrisos.
Como aquela luz depois da chuva de verão.
Como a nossa casa, depois do cansaço da viagem.
E fomos riso.
E fomos promessas.
E fomos saudade.
Agora eu vou aqui mais uma vez cuidar desse rebanho
Das pequenas, das grandes, das desgarradas
Saudades que me doem como se não houvesse mais nada.
Amigo mesmo
é um pedaço da gente
passeando em outro corpo.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Não sei se você, mas eu. E é urgente falar, arrancar da língua toda essa bola seca e amarga. É terrível você perceber que é. Humano, obtuso por espécie natural, e por definição, parasita. Parasita dos burros, mata o hospedeiro. Mas isso eu já. Mas o que assombra é aquele ângulo mais feio de cada foto. Sabe, onde cada um é porque é. E isso de ser humano já enjoou. Náuseas. Tanta prepotência, tanta arrogância. E tanta ignorância para tudo quanto. Dá ânsia. É, eu também sou, isso também me irrita. Os laços inalienáveis de espécie te amarram forte ao próximo, mas nem por isso. Não posso decidir, mudar o rumo. O rebanho é mais forte, numa direção mais tola. Então sentar e aproveitar cada gole d'água. Cada beijo, cada pássaro, cada amigo, cada chocolate, cada cachorro bobo abanando o rabo, cada pôr-de-sol, cada manga, cada amor, cada gemido, cada secreção, cada flor, cada sensação, cada folha nova, cada suspiro, cada saudade, cada rede na varanda, cada amanhecer, cada lua que mergulha o mar.O ser humano é muito estúpido. Tudo rápido e de uma só vez. Porque.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Dos segredos

HAI
TÃO SIMPLES ASSIM
QUE AO CAIR DA NOITE
ATÉ NÃO VIRA SIM
CAI
HAI
TRANSLÚCIDO EU, CACO
TENTANDO COMPOR
A ALMA EM PEDAÇOS
CAI


quinta-feira, dezembro 22, 2005

Vem. Me acompanha numa taça de silêncio. Eu queria brindar à vida, e tantas coisas lindas, mas as coisas insistem num tom cinza. Assim. Sabe quando as coisas ficam estáticas, como um passo à beira do quase e não. Apenas os supiros, as idéias do que seriam. Sabe, isso aqui está realmente acabando. Uma grande pena, e penso se talvez. Mas não há mais tempo. A atmosfera bebeu mais fumaça do que podia suportar. A terra engoliu mais sujeira e veneno que conseguia e. Ontem à noite, antes de dormir, a Terra conversou comigo. A voz era baixinha, a voz de um doente terminal. Mas tanto carinho nos modos dessa jovem senhora! Ela me disse que estava morrendo. E disse que sentia não poder mais sustentar seus filhos. Não sei, mas aquilo doeu tanto. E não há mais tempo para fazer implantes ou transplantes. Seu corpo se desmancha e seca. Por isso. Senta ao meu lado. Um gole de silêncio em homenagem ao pôr-de-sol borrado de fumaça.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

E eu precisava tanto sentir, mas acontece que eu não sei mais, é como saber e. Tão simplesmente irreal e patético, com os absurdos fingindo horas e as horas jogando cartas. Cartas. Simplesmente como quem toma chá em dias de chuva ou bebe poças na lama da tempestade, que cada um tem sua medida. E costumava ser fácil, quando sentir era, de fato, biológico e não escravizado por um curto circuito de intrincadas sem-razões. Mas se. E ontem, o pôr-de-sol dizia, mas a pele não conseguia absorver. Então. Os olhos gelados e o caminho de casa.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

HAI
Se for por muita sorte
Um amor eterno
Dura até a morte.
CAI.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Por um triz

Balela.

Tantos finais guardados,
Ela sem final feliz.

Quis compor um poema
Livrar-se de um risco
Talvez ser atriz.
Achar um verso amassado
Tomar um sonho emprestado
Ser a mais bela
Meretriz e donzela,
nos sonhos do aprendiz.
Quis talvez o amor,
Grande telenovela
De um mal sem raiz.

Balela.

A vida toda era aquela:
Feijão com arroz, pão com pão
Cansaço no rosto,
Levando bem dentro uma cicatriz:

Vida dela, sem final feliz.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Não pense que sempre foi assim prá que fosse sempre tanto. É certo, doía. Algo sempre. Mas pelo caminho aprende-se a morder os dentes e sorrir alguns absurdos. Porque. Mas por esses tempos um grito muito horrível vinha daqueles velhos porões. Estavam muito cheios, e eu. Eu sabia que teria de voltar lá algum dia, e passar a mão sobre as cabeças de tantas coisas ferozes. Mas acontece que o medo. Então eu tentei de novo, abri a janela e acendi algumas luzes. Os gritos diminuíram, e assim, à luz das idéias, algumas coisas não eram tão feias. Recolhi algumas, cantando adormeci outras. É verdade, algumas vezes tudo se agita, e por um tempo infindável dói como se fosse de novo. Mas tem dia novo lá na frente, eu quero erguer as velas e esperar a direção dos ventos. É que tanto alheio invade e passa derrubando tudo, e fazendo alarde, até sermos novamente gritos, novamente dor. Mas tem o vento, e passa. Então as velas puídas e a sensação de agora.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Indubitavelmente

Levantar mais uma vez as bandeiras cansadas
Comandar um exército de pensamentos
Rumo a uma vitória impossível
Pela chama tênue de um ideal lírico?

Carregar mortos e sustentar feridos
Incendiar os erros e perdoar as voltas
À marcha improvável de um quando sem direção?

E novamente quando sangrar a aurora
Manchando a exatidão do horizonte
Rufar os tambores e brandir as ações
Por um punhado manso de lealdade e intenções?

Eu vou.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Uma noite dessas de Outubro...

Tem um som melancólico o espírito
Quando se parte,
Subjugado por uma realidade angulosa.
Eu vim pelo caminho, pensando
Ao som de um "tec tec" úmido
e esparso no vidro do carro.
As gotas indecisas de chuva
caindo sem graça: "tec tec".
Um TEC mais forte.
O espírito, estilhaçado pelo peso
de um mundo de dentes à mostra.
No portão, a chuva.
Para dentro de casa, as idéias doloridas
A luz acesa que não conforta.
Um sono sem sonhos.