domingo, dezembro 31, 2006

Das ardências.

E como se não soubesse que eu tenho essa urgência escancarada em minha boca.
E como se eu pudesse estancar toda essa verborragia em meu olhar.
E logo eu, que tenho vertigem de silêncios!

Eu que me sobressalto a cada dedo que desliza a pele desenhando um rumo
Eu que tento conter desejos dentro, estremecendo corcoveios mudos
Eu que amarro na saliva teu gosto de carência.

Eu não abraço ausências.

Eu gosto de arder possibilidades quando me derramo em tua entrega
Gosto do murmuro baixo na doma das peles
E da mão entrelaçada sob o arrepio:

Eu abraço a carne fresca desse tom arredio.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

PORQUE O DIA 28 TEM O NOME DELA.

Eu mal consigo ordenar as palavras para dizer-lhe.
Porque, à tua frente, elas se animam feito crianças
Em sol de Domingo de férias, tarde quente.

Eu sei de um verso seu que voou até os meus olhos
E fez revoada de cores, de dores, amores. Até que.
Cresceu um elo forjado com palavras banhadas
Em amor-luz, sol-riso, encantos de mar-lá.

Então disse: vem. E eu fui. Mergulho no mundo.
E o abraço foi tão grande que coube uma constelação.
Eu te trouxe estrelas, e você enfeitou as bordas do sorriso.
E as palavras estreitaram distâncias até vibrar o único sentido.

Toque de luz que acende escuros.
Borboleta que pincela a raiz dos sonhos.
Polinizadora de esperanças.
Minha flor, meu amor, minha menina.

Marla de Queiroz. Marla de todos os Santos.
De querências, de quereres.
Marla do dom de sorriso
Fada das continuidades.
Rendeira de palavras que se aninham nela
Como os pássaros que deitam cansaços sobre os ninhos.

Marla escrita no avesso da minha alma,
Matiz dos elementos que escreveram vida:
Minha querida, estivestes em minha’alma desde o sempre,
E redescobri teus passos de vento desdobrando os silêncios.
Ainda ecoa teu riso transparente a cada dia que renasce ardente.

E no teu aniversário desejar o melhor não basta:
Eu quero fundir o abraço tornando real o azul,
Quero libertar todas as alegrias guardadas como estrelas
encerradas no branco de um sorriso, para enfeitar a tua noite
e alargar teu mais lindo sorriso, para enlaçar o mundo.

Amo você, amiga, irmã, mãe, filha, poeta, pessoa: MARLA VILHA!

terça-feira, dezembro 26, 2006

Coisa de poeta.

***
**
*
Poesia?
Leio a esmo
Para que me diga um pouco mais
Sobre mim mesmo.
***
**
*

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Da noite acesa.

E quando as palavras tépidas
esbarrarem sussurros no teu arrepio
Eu vou escorregar dentro
dos teus olhos de vôo,
Vou alçançar o horizonte
pela fresta dos teus medos.

À noite, quando a febre visitar tua insônia
Beberei dos teus dedos a fúria dos sentidos
Inquietando ondulações da táctil alma.

Depois, lento, o sabor invadindo tua veia
O calor à espreita na tocaia
E a vida, armando sua teia.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

PARA CZARINA DAS QUINQUILHARIAS

Porque hoje é seu aniversário,
poeta linda!


Ela é a Czarina de todas as artes
Tantas partes,
Todas as cores.
Ela é um riso doce ecoando
no primeiro sol da manhã.

Ela é a equilibrista das palavras,
Brinca com as realidades colorindo-as de circo.
Ela sabe desmistificar fantasmas
E pintar sorriso na cara das dores.

Ela é a Czarina de muitos nomes.
Escrevendo hoje mais um verso
No grande poema da vida.

terça-feira, dezembro 19, 2006

DA SÉRIE PARCERIAS - POEMAS DE COMUNHÃO


Por Czarina da Quinquilharias e Rayanne

As sementes germinam
inesperadamente
E rapidamente
Flores rompem
Qualquer silêncio
Qualquer assombro de vertigem
Em coração que inquieto pressente.
Canteiros pipocam cores:
Plantas nascidas direto da cal virgem
subindo, infestando o teto
brotando raízes na gente.
E colorindo do azul mais bonito
Tudo o que de infinito
Só - mente
Rompe o silêncio do rimar.
Assim - embotadas de céu
Czarina e estrela
Refletindo amor, há-mar.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Série Parcerias - Poemas de Comunhão

Por Rayanne, Czarina e Gil (Paredro)


Do Giro do Guarda-Sol

Afinal desfeito o engano:
Que o melhor de tudo
Ainda é a ausência de um reto plano.

É a ausência do sentimento mudo,
é a teia cruzada de arame
é o jogo de ludo mano a mano
diante do prato de inhame
e o passo a pressa acontecendo
direto perfeito até que, cruzada a crase,
o quase desengana.
Secreto frio amarrando entranhas
Desfiando a face do maior capricho
De um universo composto em frases
Que se ganha.

É jogo aberto, fechado
ou jogo do bicho?
(é só outra fase),
me disseram em cochicho.

A única certeza é que é errado,
O único erro é que não há certo
Só o que existe é uma presença,
Que cá, não está.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Dos Presságios.

Eu gosto desse instante que ainda é quando,
Inquietudes em longos passeios pela veia.
Eu acho bonito esse vulcão sustenido
E o gesto contido, porque a alma receia.

Eu sinto na pele a ingenuidade leve

De um apelo percorrendo os pêlos
Caindo dentro como se fosse neve.

Eu acho belo o caminho do arrepio
Esse caminho torto por onde espio
Estrelas de pressa florescendo esperas.


Não sei o porquê nem sei se será
Mas a sensação troteando meu peito
É, das coisas sem jeito, a que mais me dirá.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Química do Amor

Então não me venha dar a saber
Ou tente me fazer acreditar,
Que eu não me caibo, contenho, retrato:
Nessa tal química do amor
Um teorema barato.

Ora veja você
Que afirmação mais cretina
Fazer crer que o amor
Ora faça o favor
Cabe em serotonina.

E os ferormônios em flor
O que sabem do amor
E da exaltação das retinas?

Se você puder explicar
Como então se ama a vida
E no abraço mãe vira menina
E a poesia de amigos ganha calor,
Talvez eu possa então aceitar
Os tais dos teus fatos
que explicam o amor.

Mas... e quando é dor?

quinta-feira, dezembro 07, 2006

À vocês, amores.

E eu sonho de cá todos os risos de lá
Onde a positividade encontra seu pólo
E em ímã, universo atrái as sínteses
De todas as cores, de toda poesia,
Estancadas as dores.

Abriu-se dentro uma porta de onde
eu salto suicida e renasço em todos os verbos
encharcando a carne da madrugada de versos.
Então não cabemos líricos, físicos, estáticos:
Somos a ode em movimento das retinas.

Ao calor que se espalha de um abraço
idealizado, conjugado e repartido
Entre os bites e megas de cansaço
Um baque surdo semelhante ao grito
Invade amores consumando o regaço.

Assim, todos os dias ao descer os olhos,
Em fervura eu desejo os seus sorrisos
Para que sempre nessa comunhão de instantes
Eu possa partilhar do rumo dos seus risos.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Vaga-Lumes.

A noite se cala e eu aqui.
Eu nem deveria, mas a noite é enorme,
E tudo dorme, menos o silêncio, que fuma um charuto na varanda.

Eu aqui, a tantas milhas de saber,
Mas tão perto prá sentir.
O que eu posso dizer?
Tanta vida se agitando inquieta dentro.
Mas não é essa a pulga-insônia que pergunta insistente.

Se ao menos eu pudesse capturar essas palavras borboletrantes
Ordená-las em um gesto, e em uma nota clara
Compreender a busca!

Mas a noite é enorme,
As palavras inutilmente reconhecem flores pelo caminho,
E esses sorrisos insistem como vaga-lumes dentro da noite,
Quando eu queria apenas caçar palavras e colar no papel,
forjando algum sinal.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Conexão.

Fios invisíveis unindo as intenções
Gestos amarrados aos sorrisos,
Lágrimas coladas sobre a pele alva dos acontecimentos.

E tudo se move sincronizadamente,
Como a canalização do ódio urbano, gerando um novo ódio,
Um quadro vermelho cravejado de balas na esquina de sexta.
Como o amanhecer de uma flor que se encontra com o mundo,
Gerando o encantamento no ruflar das cores da borboleta,
Unindo na manhã de Domingo para sempre o amor, infinito enquanto dure.

E talvez ainda o sonho de todas as gentes
Canalizado assim nesse amor em fios transparentes,
Seja capaz de urgir contra a cadeia inconseqüente e frear a vida
Que principia a ruir sob a cacofonia humana dos nossos pés distraídos.

Porque mesmo quando os olhos avermelham
Ainda posso crer que seja pelo orvalho no pôr-de-sol que sangra,
Parindo uma nova noite, uma nova lua, um novo sonho. Até que.

terça-feira, novembro 28, 2006

5 minutos.

E deve ser isso assim, seu moço.
É esse agora tão aflito querendo os braços da gente,
Essa vida de boca faminta sugando os sonhos do peito,
Esse tudo prá ontem, porque tudo perdeu a noção do presente.

Dever ser, sim, seu moço.
Ainda ontem, era um tempo menino sorrindo tantos dentes
quanto tinha a mostrar;
E ainda agorinha, eu me lembro, tinha um sonho pequenino
que eu gostava de ninar.
Mas agora tudo é pressa, seu moço.
Porque as pessoas, parece, perderam a dimensão de estar.
Ficam nessa de querer. De se. De será.

Deve ser, sim. E esse seu tropeço, seu moço,
talvez seja esboço prá tú regressar...
Prá um sorriso bobo,
esquecer num abraço
Coisas do cansaço
de um tempo pouco
Eu não entendo, seu moço, porque tanta pressa prá acabar
Acho tão bonito
Isso de ficar
Isso de de estar rindo
De papo pro ar

Que cinco minutos por dia, seu moço,
Não há quem diga que há de faltar...

sexta-feira, novembro 24, 2006

Para a harmonia.

Ouve com cuidado as batidas do pensamento:
Às vezes se forma distância entre a mão e o gesto
E transformados em distância perdemos a compreensão do resto.

Sê gentil com teu coração que sonha:
Ele às vezes pede um instante de ti embrulhado em silêncio
Para acalmar as entranhas que ventam uivando urgências.

Oferece azul aos teus olhos pássaros,
Que eles permanecem em ti mesmo quando ganham vertigens
E calam em si toda a querência de imagens.

Permite calores aos teus braços,
Que buscam tanto outros calores em peles de trocar amores
E não querem quedar cruzados em negação à vida.

Derrama tua boca em outra boca
Revelando todo o fluido dos sentidos,
Que quem se doa dói e nobrece em si todo o juízo
Renovando a arte de acontecer solto no instante.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Correnteza

De algum lugar eu me fiz neste
Para a inadmissível omissão,
Pior mentira contada ao sentimento.
E esse caminho impossível formando leque
sob as pegadas, a ingenuidade do desconhecido.

Os segredos como pétalas desfolhadas se tornaram vento,
E é livre a sensação de absorver o mundo nú de todos os medos.
Um manto doce veste a alma, um manto amor transfere calma.
Amor feito comunhão,
quando a entrega ao acontecer conecta todos os sorrisos.
Como se houvesse um fio transparente ligado ao canto de todas as bocas,
formando uma renda de felicidade onde basta um tique, um tremor,
Para a gargalhada de todos os seres.

E de repente vida,
É como descobrir um sol
gentilmente aninhado entre os dedos
Esperando qualquer fresta de chuva no olhar
Para ser, raiar e rachar a semente.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Do (re) encontro.

Para Marla, Jardim, Grilo, Jordana, João Antônio e demais participantes da sinfonia...


E quando eu desci os passos das nuvens e toquei o chão,
o frio quis ainda saltar alto no estômago, tremulando as mãos.
As mãos suadas e a emoção descompassada.
Um abre-fecha rápido, como um piscar de olhos,
e já num sorriso: amados.

Um abraço de almas em festa, a impressão cognitiva
dos que estavam presentes, apertando os olhos de vontade.
Os abraços eram o mundo, os sorrisos desmanchavam qualquer cansaço.

E depois.

Depois uma dança de almas encantadas, apaixonadas,
desfile de belezas, laços irmanados de carinho, sol, rebrilhos.
Tantas emoções irradiando que todos apanhados, como uma teia.
Uma teia onde tantas almas se lançaram, tornando em infância toda a renda.

E acontecemos sem muito juízo, guiados pela mão doce do universo que era a vida,
Sem muito sono ou sonho porque tanto amor bastava.
Ali nasceram idéias, flores, fatos, sorrisos, lágrimas em verso ou felicidade.
Toda a conspiração da vida, admirada, seguiu os nossos passos.

E veio a despedida, com a sensação de âncoras fundas dentro, pesando longas saudades.
Mas a sensação de que a distância é incapaz de desmanchar o verso em laço,
Letra, abraço: ainda nos protege o amor irmão, o amor amigo, o amor em si,
Traduzido em tudo isso que simplesmente somos: poesia.

Eu amo vocês.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Do parecer.

Pareço moleque
Trazendo canelas enfeitadas de roxo.
Pareço amor
Tanta pele em brasa que me reine.
Pareço menina
Tentando buscar nas palavras um colo impossível.
Pareço poeta
Bordando palavras pra enfeitar a vida.
Pareço uma fera
Os dentes e a fúria à mostra.
Pareço ferida
De longa dor, ferida exposta.
Pareço passarinho
Tão novo, querendo voar, tão fora do ninho.
Pareço estrela
Brilho distante e o olhar esquecido.
Pareço um cachorro bobo
Lambendo cicatrizes inventadas.
Pareço aquele que perde
Correndo desvairado como quem não tem nada.
Pareço rica
Juntando todo o amor reunido.
Pareço piada
Tentando sorrir sob tantas camadas.

E é tanta parecença
Que acabo parecendo comigo.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Do que Será.

O tilintar do tempo - pardo
Sobre os versos cansados.
Ausência debruçada sobre o peito
Teorizando sobre os passos dados.
E quando talvez a certeza se aproxime,
Com seu passo arisco e ritmo desconfiado
Há que erguer da dor uns dentes tristes
E a afugentar longe e fora de qualquer traçado.
Porque a insidiosa orientação das marés sobre a pele
Do verso alcoólico
Do gesto cansado
Do amor sofrido
E em dor desgastado.
Deitar silêncio quando a exaustão tomar palavra
E adormecer sem ter partido
Solidão bilateral de única parte.
O que há sob o véu, através, manhã nenhuma.
E do que será marca alguma fica
Quando há que decifrar em todo
O que amor nenhum explica.

sábado, novembro 11, 2006

Da continuidade.

Porque há sol batendo na janela,
Há dias acampados frente à ela,
E há tantas coisas sob o meu olhar.

Porque tem esse milagre que se chama amigo,
E esse amor tão terno que chega a clarear.

Porque eu tenho poemas nos dedos
e tantas palavras que não quero calar.
Porque todo mundo tem medo,
mas medo é a vontade
que os olhos tem de ser mar.

Porque eu vou até ali buscar um sorriso
Porque essa tristeza uma hora tem que passar.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Das decisões.

Choveu tanto e depois.
Flor seca guardando a memória
amarelecendo duas páginas.

Caminho pincelado em sobretons de vermelho.
Prá onde eu posso, aonde ainda quero ir.

Agora a sensação estática de uma falha,
Algo suspenso ainda, livro aberto, frase inacabada.
Falta saber amanhecer para pontuar enfim o poema.
Com duas gotas.
Ou duas risadas.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Creia.

Creia:
Eu não planejei a ausência de mim deliberada
Não busquei a tristeza diluída em meu sangue
Não tatuei no corpo esta despedida.
Creia.
Cada célula tua que descolo dos meus versos queima
E o carinho que te acerca comigo teima
Mas eu não posso ficar na oferta do meu cansaço.
Creia,
Cada passo que me afasta de ti vai cadenciado
Pelo sonho são, não concretizado
Pelo caminho que me afastou do teu lado.
Creia
Eu vou te guardar a qualquer distância
Pausado amor tão belo que lembrou a infância
Enquanto me dói, me esconjura, esquece e desgasta.



CONTA

Conta.
Conta porque é que eu não evaporei naquele último abraço.
E quando as palavras se uniram formando adeus, não se fez silêncio.
Conta porque um presente tão bonito (amor) consegue doer tanto.
Diz porque é que a gente perde os passos do caminho.
Porque
eu
não
sei.
Diz.
Jura que eu vou saber e me perder de novo na tua pele.
Explica como é que pode a gente perder de vez o caminho do sorriso
E não encontrar mais as trilhas que se fecham no coração.
Conta.
Eu
sei
guardar
segredo.
Conta porque faz tanto tempo e eu não consigo ir
Conta porque é que eu ainda nem sei se eu posso voltar.
Eu só sei desse mistério que se abre em mim
E os passos que não me tiram do lugar.

posted by Rayanne at 7:50 PM

quarta-feira, novembro 01, 2006

*Accipere iudicium*

Eu mergulhei tão fundo,
E agora me prendem os tentáculos da noite.
Eu cheguei ao prelúdio do silêncio:
Meus dedos azulados maestram muda sinfonia.
O coração bate apressado mas não sinto:
É inverno dentro, que intenso se anuncia.

Ainda sinto aquela velha asfixia
Contornando as tentativas em meu peito.
E não é à toa escorrendo pela chuva
Um fio de sangue fugindo deste feito.

O veneno que circula me entorpece
Embora lúcida estou distante, o corpo frio,
E esta morte aparente me entristece.
Eu aguardo cavalgarem estações,
que enfim me tragam primaveras e verões:
Eu aguardo aqui no fundo um novo dia

Porque hoje eu sou metade poesia
Amanhã seja talvez só desencanto.

terça-feira, outubro 31, 2006

Das tentativas.

Eu vou restar acima dos versos cansados
Quando as frases ruirem sob meu silêncio.
Eu vou dissimular até ver se esqueço
E de tanto buscar enfim mereço
Um quedar de palavras exaustas sobre algum abraço.

Eu vou procurar qualquer passo e traçar uma dança
Eu vou caminhar até arrancar do caminho uma trança
Que faça calar, que faça calar, que faça calar.

Eu vou tentar entender porque é que sangra
E fazer de um poema a minha canga
Prá me afastar dos perigos de outro tema.

E quando não restar mais nada além da vertigem
Eu vou mergulhar bem fundo no meio de tudo
E descobrir palavras cobertas de fuligem.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Irrevogável.

Ao contrário do que talvez nunca tenha sido
Eu sou
Nervos em flor,
Desabrochando agudos o alvoroço da primavera.
Estampido seco
Rompendo a tez desgastada.
Eu sou.
Cheiro de terra molhada ontem,
Com urgência de sementes hoje.
Sou o olhar do filho que não será
Entre os dentes em agonia de Gaia.
Eu sou apenas.
Tentando acontecer solavancos repentes
Em que suspiros direi quando cair.
Amor.
Eu sou todas aquelas coisas que ninguém entende
A resposta do que não perguntou.
Disparidade.
O meio inviolável do que secreto teima.
Eu sou continuidade de reticências
Nãos pausados
E entrega.
Eu sou entrega.
A necessidade absurda de jamais ter sabido,
E não ter provado,
Ou tocado,
Partido.
Sou ensaio de perfeição falido.
Sou vôo gauche, tristeza por não saber partida.
Eu sou espera,
E quando tudo em ti mais cala,
Eu terei sido.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Sobre o momento.

A amplitude incomoda a falta de ar. Vou buscando uma janela, pausa, espaço em branco que volte a sonhar. E sigo nublando tempestades dentro, com a inquietude de quem não chegou e nunca sabe se vai chegar. E esse espaço vazio que pode haver, de um lado. E esse silêncio todo, sem poder disfarçar essa ansiedade que conflita com o desejo de estar. Eu não me sinto mais confortável dentro da minha pele, minhas palavras, meu sorriso. O choro retesado até seu limite afogou a garganta. A mudez, agora. Essa paralisia para alcançar a manhã. Mergulho no momento, para camuflar a angústia, deixando as atribulações diárias subirem pelas pontas dos dedos e cobrirem meu corpo, sufocando todos os poros, todos os gritos. Então é tudo um torpor de minutos mornos e horas sucessivas. E fora tudo se agita com a atividade frenética do mundo, suas exigências infantis, a globalização das angústias. Mas eu estou aqui, muda. Esperando vir ou passar. Apenas aqui com meu peso impossível e a minha velha falta de ar.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Ferrugem.

Como ferrugem, devorando os sentidos.
Como uma infecção, latejando a carne,
pulsando pus amarelo, dúvidas quentes.

Olhos embotados do grito, turbidez.
A mão ainda sobre a garganta, reação.
Olhos vermelhos de guerra, confusão.

A cabeça vai pulsando um som tão alto,
O coração vai fibrilando em sobressalto
E dentro, a ferrugem colorindo imagem.

(** constrói prá mim um sorriso? **)

quinta-feira, outubro 19, 2006

Desassossego.

E tudo tanto
que não me pareço comigo.
Deveras, sente?
A dor de mente
a que secreta abrigo.

É quando a poesia pouca
E se me falha a vontade,
A necessidade rouca,
Antes que tarde
A vida louca.

Brinco entre as rimas
um lirismo triste
a cor soberana
Sobre sentimento que insiste.

Eu tenho tanto para cantar
E a voz tamanha falta,
porque o peito se acumula
Em tempestades se estreita,
Para que tudo venha calar.

Eu não entendo o desassossego
Em que passeio em mim de lá prá cá
Não sei para onde vou ou onde chego
Buscando sempre algo que ainda será.

Mas ainda não.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Feliz Aniversário, Estrela-Primeira.

Então fez-se seu dia,
com um novo ano inteiro
para florir todas as mudas que sonhar.

E um véu leve, garoa ousada,
refrescando qualquer possibilidade no ar.
Porque hoje é seu dia, hoje há que sonhar.

Porque quando eu tinha asas curtas emprestei seu vôo,
E foi você que me ensinou as nuances de voar.
Porque despidos de qualquer coincidência humana:

Ser humano é sede
sede que excede
a velocidade de amar.

Então fez-se seu dia.
Comovido, o tempo marejou os olhos,
Uma flor tão rara, uma flor que é toda vôo e que esquece de sonhar.

Amanhece o dia, e eu continuo a respirar poesia
Porque também você floresce
E segue a cativar o ar.

Como um verso que excede em si mesmo a capacidade
De, lírico, absorver e reinventar paisagem:
Mãe, amiga primeira, mulher verdadeira, vertigem de sonhar.

**Para você, mãe, no seu aniversário.
**Que os sorrisos brotem como a insistência da primavera.

terça-feira, outubro 10, 2006

Da escrita.

Porque eu permaneço ausente quando você me transborda.
Porque sempre dói um pouco quando o sorriso.
Porque a distância cresce e a saudade ramifica.
Porque de paisagens provisórias forjam-se elos permanentes.
Porque a brevidade do silêncio não antecipa a intensidade desse grito.

E eu não sei onde fica o som da flor que se abre para a vida entre as buzinas diárias.
E eu não sei se aconteço simplesmente ou transbordo e caio.
E a poesia escorre pelas bordas dos olhos aflita, procurando qualquer que em silêncio tarde.
E as minhas mãos partem em busca das suas, e em binários, não vê.
O silêncio de qualquer resposta é o meu gesto extenso à qualquer pergunta.

Porque eu estou derramada aqui em em ti
E se me lê, me desnuda, envolve, me empresta um sopro de vida
Que, um pouco mais, permanece contido em meu hálito.
Passeia os olhos pela geografia das letras e creia:
Eu estou mais aqui do que em mim jamais estive.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Amálgama

É quando dentro do mais azul dos matizes
Você se pergunta quando vai ser
E nada, nada responde, e o silêncio
Entrecortado pelo som doce do alvorescer.

É quando aquela velha força se acomoda no centro
E um sorriso fresco insiste na aridez diária
Dúvida acampa acerca dos anos e ao redor dos feitos
Na amálgama sôfrega que bafeja dentro.

É quando a aura ilumina sofrida
Prevendo um vulcão que ronrona baixo
A que com sacrifícios vários sustento
Mantendo em trégua a explosão contida.

É quando entre isso ou aquilo
Não há o que se queira ou à vida molde
Porque nunca nada basta e em tudo assimilo
Um equilíbrio partido que não há nada que solde.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Ao contrário, como nunca.

Ao contrário, como não houvera antes.
As imparcialidades repetidas,
As vicissitudes divididas,
Quimeras subtraídas.

Adeus moldado em forma de não,
lança pontiguda sangrando inquietudes.
Ela sentia e dentro, caminhos arguiam passadas suspensas.
No labirinto das veias, um sangue minotauro se perdia.
Na máquina dos medos, uma fábula impossível construía.

E amordaçada, a fúria chuta o peito.
Descompassada, harmonia veste espinhos e se encolhe em botão.
Mas havia sempre, dentro das coisas impossíveis,
um aroma doce pretendendo a baunilha,
a televisão ligada sob a folhagem densa das horas,
dentro de uma bolha de calor ameno,
em segura suspensão.

Ao contrário, nunca houvera antes.
E o tempo infalível, subindo como hera venenosa,
Encobrindo janelas e gritos, solidões invencíveis.
Ao, contrário, dentro, a animação das horas,
coloridas brindando ventos, descolorindo versos,
adormecendo fomes inalienáveis.

sexta-feira, setembro 29, 2006

UM ANO DE CONTRATEMPO.

Há um ano atrás voltei a respirar.
Fundo azul de letras brancas,
Brincando estrelas prá brilhar.
Esconderijo nada secreto de todos os versos
Que me assaltam o sono na madrugada.
Abrigo de palavras,
malha de sujeitos e verbos.
Renda viva de sorrisos, reflexos e sensações partilhadas.
Entrega onde o tempo
Salta aos dedos,
Foge aos pulsos.
Essa entrega contra o vento
Perfuma os medos,
Floresce impulsos.
Meu amor, meu rebento,
Meu Contratempo.

**Ao seu primeiro aninho, criança**

quarta-feira, setembro 27, 2006

Era a chuva a embalar
o sonho do vento
que se esvai.

Era idílio de brisa ou furacão,
era mais...

Era o prenúncio da mesma dor antiga
Era o precipício quando acaba a imensidão
Era a tarde triste nascendo atrás da estória.

E era tão conhecida aquela sensação
Aquele telefonema mudo suspenso no ar
E o sinal de ocupado nos meses depois

Quando dobrou a esquina do sorriso sabia,
Não havia mais nada, nem suspiro nem pássaro.
Depois do último dente
Passo,
Escada.

Atravessou a porta do juízo e ganhou a rua.
Fora, a chuva lavou qualquer chance de grito
Guardou para si toda a dor; o vazio. Somente o vazio.
O vazio traçando rumos infindáveis dentro.

Porque era assim. Ao rio os pulsos, as horas.
Dissolvidos na água que fugia escura.
Porque nunca mais é ser tão triste.
Porque fechar a porta amputa tanta ternura.

Pensou em voltar e não. Tantas vezes. Até.
Mas a vida vai bordando escamas nesse “nãos”
E de repente a gente volta a flutuar...
Porque nada e tudo se aproximam tanto.


**Publicado no Secar ao Vento(http://www.secaraovento.blogger.com.br/index.html), Edição lençóis.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Do que passou.

Fito o feito:
Fomos fato
Sem efeito.

sexta-feira, setembro 22, 2006

WWW.

Quero um poema como um grito
Rompendo a mudez paralítica do verbo;
Quero romper a estática, a dialéctica,
Alçar vôo emblemática, ave poética.
Quero menos espaços e mais abraços
Fugir à prática matemática das horas.
Mas,
tenho apenas www.
e este amor,
maior que o mundo.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Da Chuva.

Na sinfonia da espera
Ela primeiro precipita
Depois, primavera.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Da Amizade.

Preciso
Da palavra exata no momento exato
Do gesto impensado e do espaço branco.
Preciso
Do teu choro e do teu riso
Teu amparo, desamparo
Teu abrigo.
Preciso
Do teu fogo amigo
Do teu silêncio ou do acaso,
Teu sentido.
Preciso
Do teu ruído a preencher espaço
Tua mudez, teu leve traço.
Preciso
[Re]conhecer na distância clara
Tudo o que a poesia cala,
Sobre teu ser querido.
Preciso
Saber-te riso
Encontrar-te perto
E guardar-te dentro,
Para sempre amigo.

**Para você, Gi. E o melhor dos aniversários.

quinta-feira, setembro 14, 2006

CURTAS

* Eu me debruço no poço dos teus olhos
E repouso afogada na floresta do teu peito*
**prá você.

*Prosa é o pluriverso da poesia
Quando goza*

*Ando tão à flor da pele
pele em flor
pêlo apela
dor*

*Pedaço de sal
No céu da pele.
Resquício soluça:
No som, sa[u]dade.*

*Raso em mim
desatenta, a medida dos teus anos
Claro equívoco
desses tantos desenganos *

quarta-feira, setembro 13, 2006

DA FALTA

FALTA UM POEMA
FALTA UM LUGAR
FALTA DE AR.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Bem?

Você diz que está tudo bem
e eu acredito.
Acendo minhas luzes e olho no espelho.
Você sorri de volta e eu quase me identifico.
Posso sentir o peito estremecer
naquela velha dor aguda e sem jeito.
O mundo parece desabar
Cada volta é mais funda e nunca acaba;
Mas se alguém perguntar por mim
você dirá que está tudo perfeito.
Hoje é um daqueles dias em que a maré enche os olhos
e eu me amiúdo tanto, sinto tanto frio.
Mas você se mostra tão forte.
E as balas que em você ricocheteiam
atravessam meu peito.
Eu tenho que seguir recolhendo pedaços
remendando verbos,
construindo um abrigo de palavras,
um abrigo anti-aéreo, anti-etéreo.
Mas você é o inverso das palavras.
Você sabe censurar a dor.
Eu olho no espelho e você diz que está tudo bem.
Eu olho no espelho, esse sorriso colado em meu rosto,
e eu quase acredito ser você também.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Galope vermelho.

Palavras soltas
_segredos_
Galopando a rima dos meus medos
_Ágeis_
Saltam sobre os dedos
_Indomáveis_

De relance através dos arvoredos
A vasta crina confundindo o horizonte.

_Vermelho_

Olhar no espelho
O amanhecer
A fonte selvagem

Derramando em pêlo
Pele
Palavras ariscas em tropel
Delineando poesia
Sobre papel.

**Inspirada no belo poema _Indomáveis_, do moço Diovvani <http://www.diovmendonca.blogspot.com/>

terça-feira, setembro 05, 2006

Caminho de volta.

Meados de primavera... como as folhas correm, brincando em tons de marrom e barro pelo vento, ora pela chuva, fica difícil dizer. Difícil dizer das incertezas que se assemelham tão pouco a nada. Apenas essa inquietude, aninhada em mim como se eu fosse o mundo, e em mim coubesse todo o seu drama. Eu sei caminhar sem rumo. Contar gotas de chuva. Sei dar colo. Coisinhas estúpidas. Isso eu sei. Sei da minha intransponível condição humana, sei desse medo – amarelo – que se parece comigo, sei das peças que não se encaixam. Do tic e tac do relógio. E que perdi o ritmo. Andava tudo tão quieto, tão mecânico, estranhamente compassado no tique taque surdo do relógio. Até há pouco fazia tanto sentido. Tanto sentido o trabalho por fazer, a xícara de chá sobre a mesa, a segurança aguardando em casa, o amor. Tanto sentido. Em algum momento entre o tique e o taque houve um golpe surdo, como seu eu tivesse sido atacada por minha própria consciência, um mata-moscas gigante. Caí do relógio. Ele continua correndo e nem sabe que eu estou aqui. Sabendo. Muito embora não compreenda essas coisas estúpidas como acordar, escovar os dentes, tomar café, entrar no carro sair pra trabalhar. Todos os dias, de forma tão massacrante que se torne mecanicamente correta. Voltar pra casa no fim do dia, com mil problemas sem importância martelando a massa encefálica. Mal ter tempo de mastigar uma coisa qualquer, tomar um banho e apagar um pouco. Sem sonhos, por gentileza, o dia foi deveras difícil. Não compreendo onde fica o azul ou o cinza estampados no céu no meio disso tudo. Ou onde renderemos homenagens àquela pobre mariposa tola que se espatifou no vidro do carro. Onde, desfiguradas as cortinas dos olhos lampeja um sonho, janelas fechadas de um mundo sem limites. Onde foi que eu deixei de ser doce, onde foi que eu deixei minha ira, onde foi que eu parei de respirar?

segunda-feira, setembro 04, 2006

O sol abriu os olhos vermelhos do dia.
Depois sorriu devagar, afugentando preguiças noturnas.
Lavou o rosto demoradamente,
fecundando os poros, a pele terrosa rachada e seca.
A melodia era "Uma ode à alegria", Beethoven, sempre.
Depois estendeu-se sobre a tarde, um véu cinza e refrescante.
Como se a chuva não oferecesse a paz, radiante.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Tinturas.

Tinta
Para sempre cicatriz
Meu receio.
Sol que se põe quieto
Em meu peito.
Tinto
vinho seco que reclama a sede
Tinta
ansiosa cor a debruçar parede.
Tinto
O coração exposto
Partido ao meio.
Tinta
Palavra posta
Mal feito.
Tinto
Brincando como se fosse amor
Tinta
Tentando mascarar a dor.
E tintos pela cor de seus mistérios
Adormeceram em separados hemisférios.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Diálogo do Eclipse.

-Conta.
-Não.
-Mas não tá doendo?
-Tá.
-Diz então. Onde foi? Como foi?
-Não posso.
-Ah. Mas eu queria tanto saber. Conta.
(silêncio)

Foi tanto tempo assim, distante de saber. Foi tanto tempo assim, tão longo prá saber. Foi tão certeiro assim, ferimento prá morrer. Foi tanto ter assim, tempo não basta prá esquecer. Foi bom saber-te assim, amor para viver. E foi amor assim, tanto de não caber. E foi por isso assim, aqui vivendo a te querer.

(engole seco)
-É que você não entenderia.
-Você não tenta dizer.
-Eu esqueceria.
-Mas eu não sou você.
-Amo.
(silêncio)

E coração partido de agora, rebrilha a dor que comemora seu quinhão. Sabia. Não deveria dizê-lo, pois a dor rege tudo que aflora, e o sol, o sol sobre a delicadeza do sentimento que chora. Tarde. Recolheria seus versos minguados e tristes e voltaria ao hemisfério congelado de seus versos. Musa assim. Musa morta e branca idealizada em versos a que não pertence.

-Espera um pouco mais.
-Não posso.
-Mas...
-É tarde.
-Mal começamos...
-...?

Beijo.
Um instante apenas.
Amanhece.

Ele espera, um dia.
Ela impera, em paz.

segunda-feira, agosto 28, 2006

E se...II parte

E se?

E se eu não sou aquilo o que digo
Porque tudo isso
Se parece tanto comigo?

E porque eu pergunto, se nada responde
Como se a questão
Impedisse a aurora?

E se a verdade se estilhaça à toa
Porque guardamo-la
Com tanta vaidade?

E se o que cabe em nós não nos pertence,
E se amedronta frágil, sob a gente,
Por que a vida lhe arreganha os dentes?

E o que esperarmos frente ao nunca,
Se não somos nada, senão a confissão do agora,
Acontecendo de novo e a cada instante?

quarta-feira, agosto 23, 2006

E se...

E se hoje eu arriscasse amanhecer mais azul
E o azul borrasse tudo o que eu penso?
E seu eu conseguisse ser menos úmida
E menos hera crescesse nas frestas do que eu sinto
Deixando aparecer quem eu sou?
E se eu desistisse, e acompanhasse a correnteza macia?
E seu acordasse borboleta, colorindo a idéia de sê-la?
E se o silêncio ganhasse asas, e seguindo o nascente, partisse?
E seu eu pudesse ser apenas o que sou
Sem que nenhum desejo pousasse triste em minhas tardes
Sem que sonho algum beijasse os meus caminhos
Sem que dor alguma rabiscasse meus espelhos?
E se eu despisse a alma que me reveste a angústia
E entrasse verso no teu pensamento?
E se você, distraidamente inquieto,
Pousasse suas mãos sobre o instante exato
E partisse em mil segundos minha essência?

segunda-feira, agosto 21, 2006

Dias sem vento.

E nesses dias sem vento
ficam os poemas assim estagnados nos dedos
e o cheiro parado do que não precipita.
Apenas o enjôo permanente adotado de maneira morna
E a sensação equivalente das notícias amareladas,
tempo gasto, tempestade represada dentro.
E nesses dias sem vento
as idéias não cavalgam os cabelos, não balançam ausentes:
As idéias afiadas cravam dentes, garras, intentos.
Apenas a mão forte da razão cala a tapas
O grito, a sorte, o lamento.
E nesses dias sem vento
Derramo o corpo, qualquer canto
alheia ao encanto da poesia vária com sede de vôo.
Apenas estaciono as vontades no comprimento
Mirando o horizonte a afiar um verso vago
Que hei de cravar na mediatriz do tempo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Das palavras.

- É que eu gosto das palavras, sabe?
Palavras são peças
De um jogo de armar
Posso ter um castelo
Posso ser mesmo o elo
Unindo inverso
e o paralelo.
Bem semeadas,
palavras dão flor.
Quando empunhadas,
causam a dor.
Palavras megeras
Palavras queridas
Que vestem poemas
No baile das rimas.
Palavra é passageira -
No revés da mentira,
A palavra,
Palavra certeira.
Palavra é asa
aprendendo a voar.
Palavra menina
Cresce ligeira
E aprende a ensinar.

**Inspirada no que você disse, Bela Caleidoscópica.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Incessantemente.

Incessantemente.
Incessantemente.
Insistentemente.
Repetidamente.
Essa letra
luz elétrica
Essa idéia
Sempre acesa
Essa fome
essa urgência
Tarde exposta
sobre a mesa.
Porque não cala
porque não quer
porque não pára
E me requer.
Sorrisos
Suaves
Semblantes
Rapidamente mariposa
Tresloucada choca
o vidro, a luz
idéia solta
insistentemente
repetidamente
incessantemente
Até que alguém socorra
e cole asas à poesia
do papel.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Do dia-a-dia

*Para Paco

Os dias tem sido tão bonitos.
Quando entro no carro o volante ganha asas,
não tenho mais vontade de chegar.
Pena o pouco tempo, a vida tanta.
Toda manhã a lua vem me visitar.
Cada dia veste uma roupa mais bonita.
E o sol, com ciúmes,
veste vermelho e vem vigiar...
Eu hoje te encontrei como há tanto tempo.
É só assim que a gente percebe como memória é coisa viva,
que lambe os nossos dedos e late no inverno.
Tinha pôr-de-sol de cinema.
Tinha vontade de pausar o tempo.
Vontade de viver mais devagar.
Tinha o olho de vidro que nada refletiu
Guardou para si os segredos e apagou,
Partiu.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Preciso

Eu preciso de repentes inexatos
E escancarar a memória em sol ao meio-dia.
Eu preciso assim, da vida inteira
Acontecendo acontecido, passo arrebatado
grande ao nascer, solidão primeira.
E quando eu penso em acalmar meus olhos
vem a vida, em mar revolto
tomba o centro, espuma o nó.
Esperança de lastro,
porta estandarte redentor.
Eu preciso de sorrisos grandes
navegando a tempestade de voar.
Clar [a] idade.
Eu preciso acreditar no amor,
temível como o mar e seus escuros.
Eu preciso aliviar a dor só de ser humana.
Eu preciso
silêncio discreto de montanhas,
pavor secreto das entranhas,
Para vestir de novo a cor.

quarta-feira, agosto 09, 2006

POESIA LEVE

Escrevo não.
Transcrevo.
Transpiro.
Transcendo.
Sentir pinga o papel
E da inundação brota a paisagem.
Ver suplica mãos
e vou bordando letras à tela.
Nasci incompleta.
Inexata.
Imprecisa.
Poesia preenche os poros
E torna o caminhar possível.
Porque eu,
perdida entre tantas lacunas.
Espaços mortos,
brecha impossíveis.
A singularidade das minhas ausências.
Eu preciso de olhos.
Inquietudes.
Intensidades.
O tempo rasga e me dissolve,
aos poucos
borrando
a mensagem.
Procuro caminho,
que leve, sobrevoe e me entregue:
para o mundo,
meu mais secreto sorriso.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Queria...

Eu queria mesmo é ser pessoa de coragem. De me jogar na vida assim. Sem pudores, pára-quedas, dicionários, roteiros, traçados. Eu queria saber viver de repente, sabendo que a vida assim passa, e sobra pouco ou nada na gente. Queria não ter tantos poréns. Nem tantas ações calculadas. Viver o hoje sem planejar o daqui a pouco. Mas acontece que eu sou pessoa de planejamentos detalhados e kit de primeiros socorros. Porque se doer. Ah. E sempre dói. E às vezes eu me pergunto então por quê. Mas sem mapa, eu não sei chegar. E eu queria saber ir, mesmo sem saber prá onde. Quando, ou porque. Subir a montanha mais difícil sem saber prá que, e chegar lá só prá ver. A lua, a lua nascer. E quando der vontade, ficar triste, chorar tudo o que vier, quando for. Não engolir nós, abraços ou sorrisos. Eu queria mesmo é ser pessoa de coragem...

quinta-feira, agosto 03, 2006

Nostalgia.

Acorda.
Vem ver a poesia de um dia de inverno.
Cinza e silêncio.
A saudade arde os olhos como a primeira luz.
Saudade de tudo o que não vivi:
amigo que não conheci
amor que não amei
a dor que não calei
a flor que eu não sorri
e tudo o que não falei.
Uma saudade mansa de sentir diferente
pés descalços na grama e
um tempo maior pela frente.
Eu sinto saudade sua.
Dos seus olhos passeando minhas letras.
E uma vontade absurda de mergulhar nas palavras
traçando na página qualquer louco rabisco.
Ou me dissolver num verso e adoçar o dia.
Nostalgia.
Uma palavra quieta, um vento antigo,
a confusão discreta que vai sempre estar comigo.

terça-feira, agosto 01, 2006

Contra o Tempo.

Vivo morrendo.
Por tentar conter segundos que escorrem ágeis dos meus pulsos.
Vivo sofrendo, porque a cada batida,
coração em mim a cada passo termina.
E quem duvida?
Já nascer com pena irremediável,
doença incurável,
que ciência nenhuma no mundo tem cura:
Passar do tempo.
A escritura das rugas como testamento
O cabelo que vem fácil como vai
O gemido no vento.
Ao passar assim,
tão amargo parece o tempo.
Mas se lembrar dos olhos, antiga crença,
a paz que aproxima,
o colorido que aumenta,
Os sorrisos borrados de lágrimas.
E todos os abraços que se possa apertar,
Que o ser humano é besta fera
Mas também amor raro,
Que, como a flor, feito prá murchar.
Mas há que o pensamento,
e semeie idéias,
principal sorriso,
e despindo a malha da palavra amigo
Reconheça essência,
livre enfim de dor.

segunda-feira, julho 31, 2006

Da saudade.

Era seu
o reflexo que guardei
no meu olhar?

quinta-feira, julho 27, 2006

Retrato

O dia abre os olhos vermelhos.
As mãos no volante e o pensamento,
Ave de vôos distantes.
Lentamente o sangue volta a fluir
Força de marés e lua cheia:
Eu, novamente inteira.
E como se pousassem sentimentos repartidos,
a emoção beija a face suave de cada saudade,
enquanto o pulso pulsa dividido:
Metade luta,
Metade paisagem.
Sozinha, um sorriso estampa entranhas:
Respiro fundo até em mim não caber mais
Nada no mundo.
Tão
Somente
Singular
A vida acontecendo dilatada nos poros
A mais bem vinda das teimosias
Em tudo a que pertenço.
Mergulho raso num gosto fundo
Misturo olhares no movimento e sigo,
Tingindo instantes, singrando ventos.

segunda-feira, julho 24, 2006

Psicografia humana

Porque calar não chega
Resta dizer mais
Porque mentiras não bastam
É preciso também ser capaz
Por um interesse apenas
Por qualquer coisa fugaz
Por um motivo ou nenhum
Por um triz ou jamais
Basta ser de outro
e a insônia vai deixá-lo em paz
Quando a ignorância vária
For como todos os iguais
Um enfado apenas bastará
E nada mais.

sexta-feira, julho 21, 2006

Obsessão

O pensamento como que aperta os olhos, buscando.
Respostas, atalhos, explicações prá tanto que eu não.
Páro e fico assim, olhando as falanges arroxeadas.
Essas palavras não me pertencem.
Meus dedos são apenas caminhos,
para a conquista dos espaços brancos.
E eu que precisava tanto saber.
Mas quando pressentem a iminência de um grande silêncio,
elas me mimam, mansas, fazendo cócegas no céu da boca,
carinhos nos olhos mareados e quase esboçam porquês, até.
Quando acredito e me rasgo, precipito,
postada sem descanço a preencher vazios
elas afastam de mim a compreensão
e tudo volta a ficar frio.
É essa minha sina
vício
obsessão
Escrever até que as palavras contem
o que há detrás de cada não.

quarta-feira, julho 19, 2006

Eu sentada ao computador, uma xícara de idéias fumegantes se insinuava sobre a mesa, e na tela um traço preto piscava, exigindo palavras e mais palavras que simplesmente recusavam-se a sair, trêmulas, friorentas e indecisas. Duas da tarde. Notei uma pequena rachadura na parede, no canto, indo de encontro ao teto. Notei pela primeira vez sua pequena presença, próxima à quina da parede. Pequena, contorcida, inquieta. Parecia ter sempre estado ali – a despeito da minha insônia, minha angústia ou meu medo. Senti algum conforto à sua presença. À medida que o tempo avançava, ela crescia. Preparava seu caminho e armava tramas para suas conquistas. Parecia sempre inquieta e insatisfeita. Era um espaço pequeno para seu reino. Não sei exatamente como foi, mas passei a temê-la. Sua observação constante me incomodava. Assim como o jeito inquieto e o corpo retorcido. Eu entrava e saía da sala mil vezes ao dia, sendo preciso desviá-la a todo instante.O ambiente começou a ficar sufocante, sua presença grande e maciça. Um dia, farta da vigilância atenta, mandei o sapato na parede: o corpo esmigalhado sob aquela passada impossível mostrava ainda alguns reflexos de existência. “Melhor assim” – pensei. “Era mesmo uma idéia muito subversiva” .

segunda-feira, julho 17, 2006

Do lado de lá.

Porque era antes um sorriso provisório
E o relance cortado entre os dedos.
Era a menina dos olhos, ditraída
E o tormento discreto dos segredos.
Era a indecisão do rochedo
Um segundo antes da queda.
Toda ela um delírio em sua lógica
E a face mais remota do enredo.
A vida, esparramada em sua trama
E o caminho, que faminto pelos passos, partiu cedo.

sexta-feira, julho 14, 2006

Fui.

Lembro de andar descalça na avenida.
Agora durmo cedo, e sonho não.
Ainda sinto na boca a noite amarga,
E no peito a poesia fecha em não.
Era quase um vôo de asas livres,
Mas a vida, em passos firmes, disse não.

Tentação rotina,
fome escorrida em versos
toda a dor necessária,
toda a busca hereditária.

Eu disse não.

Arrastei meus passos longe
construí um castelo de areia
a que protejo com meus dentes de vidro:
é vertical o silêncio das entranhas.

Vez em quando me visito:
Nos relances, as palavras eu suplico.

quinta-feira, julho 13, 2006

LUA

Ontem uma lua enorme no céu.
Estava nascendo,
Que parto, que acontecimento!
Mas ninguém parava prá ver.
Ninguém fumando charutos cubanos.
Enquanto isso,
quase bati o carro
quase errei caminho
quase saí voando...
Olhando prá cima,
tropeçando estrelas,
querendo um verso que,
de angasgado, não saía.
Entendi depois:
é que a lua já é poesia.

terça-feira, julho 11, 2006

Brinquedo.

Ela espalhou as pecinhas e começou a fazer encaixes despretenciosos.
Peças sempre agudas: cinzentas, azuis, vermelhas. Vez ou outra espetava o dedo. Mais vermelho.
Fazia uma pilha alta: talvez montanha ou castelo, as peças desequilibravam, rolavam no chão amarelo.
Tentava montar um abrigo, mas não podia caber. Era demais seu medo para um esconderijo pequeno.
Gostava então de enfileirar as peças, alternado-lhes as cores. Pareciam harmoniosas assim, ainda que afiadas.
Quem chegava perto às vezes esbarrava o brinquedo, desmontava e se arranhava.
A coisa toda era assim, tendo como paisagem um pano-trapo de incerteza.
Um dia ela montou um barco. Então eu chorei muito, para oferecer correnteza.
Tive medo que ela fosse longe, mas acabou afundando em mim.
Monta agora as peças de seu naufrágio.

sexta-feira, julho 07, 2006

...

O cansaço e uma poeira fina, embaçando imagens.
O cansaço das certezas retidas em algum ponto, longe do meu alcance. Perdoa, eu não sei dizer. Talvez eu devesse mesmo me ausentar de tudo. De mim. O vazio talvez fizesse mais sentido. Eu não consigo mais andar pela rua e sorrir o pôr-de-sol. Ele me atravessa como a um vitral gasto, sem colorir dentro do ambiente a ternura de imagens. Talvez eu tenha controlado tanto os rumos da vida que tudo agora me pergunta direções, quando eu simplesmente não posso. Eu alterei as estações e agora a primavera não volta. É tão silencioso e frio aqui, e os dedos azulados doem enquanto choram palavras sem graça. E me tens amor e ódio, porque te falto. Farta de mim, também me falto. Faz algum tempo que eu esqueci como era francamente a alegria. E de alguma forma, eu preciso reaprender. Eu estou procurando como, tentando encaixar azuis entre espaços neutros, mas as peças não. Apenas sei que tudo isso acontece. Creia, eu não planejei nada disso.

quinta-feira, julho 06, 2006

Das Palavras.

Aí os dedos escorregaram para fora das mangas e começaram a algazarra sobra as letras. E as letras pequeninas, miúdas, corriam deles divertidas, ora batiam asas, coloridas borboletas. E quem visse a cena juraria que era primavera - ou que eram as férias preenchendo musicais as notas cinzas de Julho. Até o sol veio ver. E quando resolveram brincar de roda, as palavras e os dedos formaram a canção mais bonita. Uma canção que falava de pessoas distantes, reflexos, reis, fadas, e seus duelos, todos imaginados em zeros e uns, uma canção que falava de um amor transparente e de esperanças que chegavam a preencher as lacunas que se abrem na gente.
E enquanto eu ouvia essa história se desenhando, alguma coisa verde brotou sorridente.

**Estrelas emocionadas com a volta da comunicação binária**

segunda-feira, junho 26, 2006

Da pressa.

Porque quando hoje, o Tempo,
ensimesmado, foge das rotinas.

**Curtinha assim, pontuando a centésima postagem.

quinta-feira, junho 22, 2006

Dentro do escuro.

Porque quando é noite, e o silêncio
Eu fico a cantarolar baixinho para adormecer os medos.
E da ausência faço muros onde escrevo
Cada palavra que arranhando foge à alma.
Porque se me acreditas pálida,
é que a lua se pôs atrás dessas olheiras
Enamorada pela alvura de um sorriso.
E quando tudo assim, incerto e vago
Não nego, eu sangro e tinjo as águas
Colorindo a solidão de outros espelhos.
Porque verso é algo assim de arisco traço
que quando pressente lágrima, desbota.
Eu sigo antecedendo auroras várias
Temendo amor (tecer)
Rotinas cálidas.

quarta-feira, junho 21, 2006

Também acontece.

E durante dois dias e duas noites fui prisioneira.
Prisioneira de um delírio quente, o mal na tocaia.
Por dois dias, duas noites.
Fui galope dessa febre que refletiu tão bem a alma:
Angústia, urgência, o precipício de todas as coisas.
Agora o dragão de dentro se aquieta, não dorme: aguarda.
E eu sei tão bem o que é não ter respostas
E eu sei tão bem de não saber perguntas
E eu que nada sei justificando as horas.
O fôlego suspenso, por um fio de esperança
O coração vai medroso, é tanto o medo de se desmontar.
A razão baixa os olhos, enche o peito e segue reto

Mais uma vez: porque o coração tem razões que a própria razão desconhece.

terça-feira, junho 20, 2006

Acontece.

- Ei, você. Acorda. Há tanto o que entender! (sacudindo seu ombro).

- Me esquece. Não quero saber (emburrado, olhos fundos, se enrrola de novo).

- Mas eu preciso tanto te ouvir. Explicar, esquecer. Sozinhos não podemos, você sabe, não podemos viver (os olhos úmidos).

-E quem disse que eu quero? Que vale a pena? Se quando eu acerto o compasso você perde a dança, tenta teorizar os passos e não me aquece? Não quero, esquece.

-Mas eu posso tentar mais uma vez? Apenas uma, quem sabe agora eu tenha entendido o ritmo, talvez não haja tantos porquês. Deixarei que você me conduza e serei mais leve, tentarei florir mais graça e terei telas cheias de dentes - e sorrisos.

-E você consegue? Quantas vezes, e cada vez que muda o tom você perde o passo, você pàra e fica olhando seus pés, tentando entender se foram os saltos, ao invés de se concentrar e voltar à dança, à festa, ao frisson.

-É, talvez eu não saiba como. Mas preciso de você (estende as mãos).
-A verdade é que acostumei aos seus tropeços (segura-lhe as mãos).

Olham-se demoradamente.
Porque o coração tem razões que a própria razão desconhece.

sexta-feira, junho 16, 2006

Depois.

Tão sozinha
E o silêncio,
ensurdecedor.
Segundos rufam tambores:
Hinos de guerra
Lamentos de amor.
Fui assim antes
que a idéia pudesse acrescentar-me um nome;
Trilha funda no vai-vém das pupilas.
A sensação é espaçosa e aperta o peito:
Em tudo
Nada há que se aquiete.
Na linha precária
Cicatriz em verso converte
Todo o fio que o acaso tece.
Eu, apenas.
E o frio, pois nada esquece.

quarta-feira, junho 14, 2006

Dentro do nó.

Prá falar de hoje, latejando ontem.
Prá tentar drenar da ausência, a dor.
Prá decifrar a dialéctica do coração.

Secar devagar entre as páginas de um livro
Guardada em essência na memória dos versos.
Embriagar-me de poesia e ser apenas etérea.

Seria necessário retirar toda a urgência de ser
E a primata urgência de respirar.
Para ouvir em som puro a ressonância clara
De cada emoção pontuando a eternidade.

Mas eu.
E a dor tem um som agudo e constante
entremeado pelos rangidos da angústia.
E eu não
sei.

Talvez todo descompasso seja eu
Que nunca encontrei ritmo nos sorrisos
Que nunca soube intercalar humores e abismos
Derramando apenas todo o reflexo em intensidade
Porque tudo gravado na pele delgada dos sentimentos.
Porque talvez eu nunca tenha compreendido
Que o objetivo é a jornada e não
Cada paisagem estampada
Na retina.

segunda-feira, junho 12, 2006

Agora.

Agora o ar que falta.
Assombro, descaso, cansaço mantido.
Sob a pele velhas bolhas se levantam,
e um vento antigo busca frestas, curioso.
E como ardem novas velhas chamas
e como a eterna busca 'inda me reina.
E o mais provável é que talvez nunca;
e de saber toda a idéia que visita, teima.
É assim que vai o dia e beijo a noite
e ao aproximar dos meus lábios tal vertigem
escuresço a tontura e bebo os passos que ainda restam.

sexta-feira, junho 09, 2006

Antes.

Um minuto antes, como à beira de todas as coisas.
Como se houvesse uma margem indelével no princípio.
E adiante, a visão embaçada, o cheiro do medo, o vazio.
O vazio. Tão insalubre não saber.
Tão assustador precipitar-se sobre a iminência e não.
Apenas a amplitude da indecisão.
Quisera dias calmos e passos distraídos, mas a fome antiga.
O chão que não chega e tudo o que nunca bastou.
Como esperar que alguém compreenda?
Que direção dar aos passos sob a garoa?
Como desmanchar todas as pétalas
e inventar outro nome que não seja flor?
Mas eu preciso.

quarta-feira, junho 07, 2006

Do silêncio.

É quando alguma coisa fica bufando lá no fundo, inquieta.
E não parece ser segredo, mas eu simplesmente calo.
Não era assim, mas se assoma a violência da pulsação.
Cavo trincheiras profundas no pensamento, tocaio suspiros
e censuro mesmo alguns sonhos puramente românticos.
Mas a coisa toda continua e eu realmente não sei mais.
Onde a falsa calma daqueles dias cinzentos em que eu podia,
ao menos, tentar acreditar na simplicidade de sentir os dias.
Eu agora estou acuada por isso que arranha o chão onde eu tento
e amedrontada pela perspectiva do horizonte.

terça-feira, maio 30, 2006

Amigos.

Mas ainda tem aquelas pessoas que tiram o sol do casaco e estendem toda a angústia em um varal assim como se fosse a coisa mais corriqueira. Como se fosse todo dia. E essas pessoas tem umas palavras que são tão iguais, mas entram pelo ouvido da gente fazendo cocégas e vão dentro semeando mudinhas novas de esperança. Mesmo assim sem dizer vá. Mas a gente vai, e continua mais um pouco, e tenta acreditar no que faz. Porque um dia espera chegar também. Essas pessoas tem sempre um sorriso, mesmo que seja o sorriso mais cansado de todos. E essas pessoas parecem tão grandes e fortes que quando a gente fica assim um tempinho perto, sai carregando junto um pedacinho de sombra grande e volta a querer ser grande também. Porque tem horas que só eles sabem a nuance que cabe em cada palavra prá ajustar certo com o entendimento de cada pulsação.

Mestre, uma homenagem para você.

segunda-feira, maio 29, 2006

Porque eu queria ser bem grande e poder mudar tudo assim -zás- bem depressa.
Ou porque eu queria ser bem tonta e gostar tudo assim -rosa- como eles vêem.
Porque eu queria ser tanta coisa
e me sobraram estes braços curtos
que não conseguem abraçar o mundo
E essa voz tão baixa
que não consegue desenhar a história
E esse corpo tão frágil
que vai se desmantelando vida afora
E esse coração tão grande
que consegue abrigar um mundo
mas não me basta
não me explica
não consola.
Porque toda essa força calou represada
Na angústia chuvosa desses olhos
Que não vão nem voltam
Vivem na iminência do quase
que me sufoca.
Porque não vale a pena mas eu não
A palavra morde a boca e a mão
O verso me transpassa agudo
E eu tento ainda dar alguns passos.

sexta-feira, maio 26, 2006

Eu quero ir, minha gente.

Tão cansada. E os passos necessários sob a garoa.

Vai na cabeça uma música que parece tão certa:
"Eu quero ir minha gente
eu não sou daqui
eu não tenho nada
quero ver Irene rir
quero ver Irene dar sua risada"
Assim como se Irene fosse a representação de estar em paz.

Mentiras, palavras furtivas, cinismos e más intenções
Drogas, miséria, o caráter que falta e as desilusões

Eu quero ir minha gente
eu não sou daqui...........

Tão cansada, a voz rouca que falta, tanta palavra: e não adianta, nada.
Aceno de longe para outras garças tristes como eu e você: sem haver parada.

Realmente: às vezes dói muito mais que sempre.

quarta-feira, maio 24, 2006

Porque é preciso, é preciso, é preciso.


Acordou com uma sensação estranha. Pressão nos ouvidos, cansaço, uma estranha leveza. Parou no espelho e olhou dentro. Dentro do oco, do vazio de todas as coisas, e soube que não acreditava mais. Atônita abriu a janela, e tentou encher-se de cores: céu azul, flores, sorrisos. Mas nada. Àquela hora, céu de chumbo e um horizonte cortado de prédios absolutos e frios. Sentiu-se apenas uma. Vestiu-se como um número, tomou café e escovou os dentes como um cadastro perdido entre tantos. Desceu à rua, cheia de gente tão vazia. Tão vazia e agora ela. E temia. Tudo comum, vulgar, poesia nenhuma para abrir seu dia. Não podia acreditar em mais nada, porque sabia. Eles haviam enfim vencido, tingindo cada pensamento com o mesmo chumbo do dia. Era frio, e fazia um outono sem graça. Mecanicamente enfileirou os passos. Assalto na esquina, reação e o barulho seco, passo pro lado e não sujar os sapatos. Porque aquela tinta do homem no chão escorria. E logo à frente uma senhora brigou com a calçada e tomou uma rasteira indo ao chão: desvio e pressa, o relógio cadenciando espaços. Até que mais à frente, meio àquela gente mecânica da praça, seus olhos largaram âncoras e choveu no dia cinza do seu olhar: Tanta calçada, e bem no meio, uma trinca improvável e uma pequena flor lilás, insistindo acontecer. Como quebrado o encanto, a poesia latejou nas veias, ganhou cor, e nervos, para arder o dia. Ali cantou a flor. Porque era preciso.

segunda-feira, maio 22, 2006

Porque a velha angústia gastando passos, escrevendo trilhas fundas como cicatrizes dentro do que eu sinto. E eu sempre me senti só, imersa nessa confusão de vozes, pressas e esperanças, uma célula sozinha junto de tantas outras células sozinhas, todas querendo fazer parte de um mesmo coágulo indissolúvel, mas manchando sozinhas a turbulência destes dias. Não sou a única, eu sei.
O vazio sorri sem graça, bate de leve em meus ombros: eu sempre soube que você nunca iria embora. E um sonho tolo brinca romances inúteis e puídos na beira da calçada. Não cabemos dentro dos braços frios da razão - senhora. A razão, que me toma pelas mãos (um toque frio e seco) e me conduz, semi-sedada através destes dias tantos.
E às vezes nem dói tanto, apenas a nostálgica sensação de ser um programa, um mecanismo, uma peça dessas tantas que engrenam tudo o que nos vive. Eu às vezes quero sair correndo e gritar. Para que me julguem mesmo louca, para que me tranquem nos portões da alma, para que eu possa viver enfim de sonho.

sexta-feira, maio 19, 2006

Da volta

Voltei.
E há algum tempo, mas não consegui falar.

É que a esperança é algo tolo que move os dias da gente
Felizmente cega, prá que a gente não chegue a parar.
Mas eu...
É, é que cansa caçar esses moinhos
Esses gigantes fantasmas,
Essa paz sem lugar.

Acho que eles realmente venceram,
E isso de ser formiga chutando elefantes
Já está sem graça.
Porque as formigas já não sabem lutar como antes:
Juntas.

Ah, amigos, queridos.
Vocês, tão mais próximos que o resto do mundo.

Czarina, mulher-menina, forte, linda: goles curtos,
tempo pouco, embriaguez e ressaca. Da vida. Mas seguir...

Octávio Roggiero, poeta, é duro voar tantas penas tantos pesos,
dores tantas: mas voar é preciso.

Múcio, a vontade de voar acaba no vidro das janelas
que precisam estar fechadas pelo medo...

Thata, querida, chegam: e desejo mais esperança, prá amortecer
a ponta dos dedos e dos sorrisos.

Sérgio, sinceramente o fim, e os goles não afogam a lucidez,
infelizmente.

Pedro pan, "e qualquer desatenção...faça não...pode ser a gota d'água..."
há tempos transbordei meus limites.

Rocky, menina-mulher, minha flor: a guerra está aqui dentro, o mundo está
também...

da Gaveta....nem sempre....será que tem um canto escondido prá eu ficar
aí no seu gaveteiro?

Lubi, tanta saudade: porque você é uma parte do que eu sinto,
rima tanto assim, dor com talvez, e amor com prá sempre.

Miss moon...nossas tintas, visão impressionista das pegadas misturadas.

Camboleta, florzinha, a gente vai ali, sem nunca ter estado... é como abrir uma página
e sumir, sem ser notado...

Camilinha...assuste não: " férias", assim entre aspas e de coração apertado.
Eu nunca me afastei daqui......

Meus queridos, meu carinho e todas as estrelas que se possa contar.