quarta-feira, março 29, 2006

Verso triste

Distantes dos meus dedos
Elas se reuniram em segredo
E foram dançar frente aos olhos
Descrevendo paisagem diversa.

Eu fui tão surpreendida que ainda não compreendo
O encantamento sutil, o feitiço mal, a traição da palavra.

Era apenas belo, metafórico o encontro,
e agora a mágoa vária formando lama.
E eu sinto, tanto.

Cortar as letras, transformá-las em pontos,
Cortar os dedos, calar esse choque de idéia e verso
Calar espantos e abrandar meus medos.

Fado Tropical
"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."
Chico Buarque/Ruy Guerra

segunda-feira, março 27, 2006

CORAÇÃO

Meu coração é ave de vôo certo,
Desistiu das migrações e atende ao chamado.
Ninho pronto, aguardo a primavera florir as intenções.

Meu coração é par.
Mas ainda assim se aflige, ímpar.
Uma aflição que não se possa escutar.

Meu coração cerra os dentes e abre as asas
Sangra sem medo de lutar
Mas é ave de vôo certo, volta ao ninho e ao seu par.

Meu coração é ave que desafia o vento
Traçando história, contando a arte de voar.
Meu coração é ave de vôo certo, embora nunca possa parar.

sexta-feira, março 24, 2006

ENTRETANTO

Tão breve partir, tão longo o regresso. Tão dolorido regressar. Olhos engessados e algumas fúrias castradas. Sobreviver, é preciso.Mas no fundo da noite, dentro das pupilas do sonho, no mais negro do silêncio eu descubro o PORQUÊ. Ser humano é milagre. É promessa. É sonho. Ser humano é confundir-se nas cores, dissolver-se no vento inventando horizontes. Mas há quem nos furte horizontes. Mas. E sempre haverá. Eu tenho passos partidos, esperanças arranhadas, eu tenho sorrisos derramando dos bolsos. Eu tenho fé no dia que virá. Eu tenho dias e noites e posso partí-los ao meio para dividir, eu te dou segredos pintados em vermelho, a vida, trêmula nas minhas mãos, mais uma vez renascida e abrindo em espanto os olhos pela milésima vez. Não, não é essa a pausa, o intervalo. O intervalo é quando nossas mãos se cansam de esperar respostas e as pegadas se perdem em partidas breves, e até o fundo é um caminho tão duro. O entretanto é deixar de olhar as unhas quebradas para olhar a face riscada dos medos. Não desistir. Desistir é o segredo furtado, o ponto, o vazio. Eu prefiro tombar quantas vezes for preciso, apenas para erguer os olhos e continuar acreditando.

sexta-feira, março 17, 2006

Porque. Tinha que acontecer tudo isso, é como uma metamorfose, e não dá prá pular pedaços. E ontem quando eu ia de um lugar a outro, tinha um vento quente soprando forças. E o céu se espreguiçando, bonito, bonito. Porque é assim. Como as fases da maré, os cios da lua. E é tão bom sentir as pontas dos dedos brotando, e os sentidos como tentáculos, farejando a vida. Essa linha tão tênue que nos separa do desespero, uma cortina de almas, um mergulho no espelho. Hoje eu sei, após uma longa jornada dentro de mim, eu sei que não posso desistir. Porque ser humano é ser algo como uma promessa, e as promessas não devem ser partidas, porque doem. Hoje eu quero dar colo. Quero pintar de azul os olhos do medo e de vermelho os segredos. Porque tão pouco tempo. E há tanto que sorrir.

Tem um poema que hoje me cabe:

FERROS EM BRASA
Agora tragam-me ferros em brasa
E marquem meu corpo
Que eu estou forte
Estabeleçam leis
E eu as transgredirei todas
E determinem padrões
Que eu os romperei
Cortem minha cabeça
E eu sobreviverei apenas
Com o coração
(Glória Horta)

quarta-feira, março 15, 2006

À Todos Vocês

E essa noite eu visitei um mundo esquecido,
e sonhei com voracidade. Abri portas, atravessei dobras.
Visitei tantas pessoas distantes, amadas. Pesquei palavras,
como peixes tão grandes, passeei nos labirintos e nas curvas da estrada.
Fiquei entre quatro paredros. Passeei num calhambeque rosa,
e foi um passeio tão bonito. Poetizei, e era um mundo estranho,
mas a sabedoria que inundava as horas nascia de puro improviso.
Garatujei notas de rodapé sem aspas num diário de morte, depois,
flutuei com a Briza, bebi tequila ao sol, pensando sem querer,
e em todas as dobras, as portas, nos caminhos, mergulhei sorrisos.

Ah, tanta pena acordar. Havia poeira brilhante do caminho nos lençóis.
Havia segredos rindo emaranhados no cabelo, e a saudade em cada
preguiça. Vsitá-los em breve, espero, tão logo a noite pouse sobre os medos.

sexta-feira, março 10, 2006

Vale a Pena

Eu sei que poderia me envolver menos nisso tudo.
Assim seria muito menos difícil.
Mas agora sopraram os dados, e o jogo voltou a se tornar interessante.
Eu sei que posso fazer alguma diferença, ainda que mínima.
É apenas um pequeno arranhão em uma parte pequena da história, mas.
Mais tarde a cabeça vai poder ficar erguida sobre qualquer pergunta.
É apenas a minha parte. E eu acredito em fazer a minha parte.
Eu ainda acredito em muitos valores esquecidos,
mas afinal, de que vale?
Sabe, parece que à noite, ouvindo os segredos do travesseiro,
finalmente a razão, e vale a pena.
Então eu posso dormir sem temer, porque a consciência mantém as penas brancas.
E a consciência tem um vôo tão bonito.
E você andar na rua e olhar a vida sem sombras nos cantos dos olhos,
sem aquele visgo pegajoso no fim das palavras,
sem aquela maciez no encontro das pegadas.
Eu penso, e um suspiro toma forma e se avoluma satisfeito.
Depois eu abro a porta, sinto a chuva conversando os poros e vejo
tantos outros passos de sombras medrosas.
Definitivamente: eu sei, vale a pena.

quarta-feira, março 08, 2006

VOCÊ VAI VER

Um dia eu vou dizer NUNCA
E você vai se agarrar às bordas do meu sorriso
E vai sangrar tudo o que eu preciso
Prá ficar em paz.
Um dia, e vai ser de repente
num soluço eu vou ficar contente
Enquanto a tua fúria ricocheteia as paredes
Até te atravessar a mente.
Um dia, meu bem.
A cola desanda e tua mentira não cola.
E eu vou dar risada
vou andar despreocupada
Enquanto você vira em susto.
Um dia será,
um dia vai ser,
quem espera vai ver.

segunda-feira, março 06, 2006

AZUL

E apesar da tempestade e do granizo
E das folhas machucadadas, gestos partidos,
O amanhã se levanta esplendoroso
Numa comemoração de rosas e azuis feridos.
O inverno não chega para abrandar as chamas
E a chuva não basta, não cala.
Apenas eu sei desse azul que me encara de frente
Como se eu fosse a montanha mais alta
no horizonte.
Vou enfileirando passos cansados
Coleção de caminhos, desfile das batalhas:
Neuroses da guerra.
Mas ainda o azul corroendo meus poros
E o tempo dançando o azul das veias.
Em silêncio rendo as últimas homenagens
Ao pelotão de dizimados minutos.
Depois,
Voltar aos olhos do azul em frente
E mergulhar sem pudor na luta.

quarta-feira, março 01, 2006

Mergulho cinzento
Metros abaixo, toda a revolução das ondas,
Toda palavra navalhada e as escarpas dos sorrisos.
Tantas vezes voltei à tona:
A mesma tempestade,
Olhos miúdos de vidro e dor de gotas verticais.
Com a serenidade dos náufragos eu bebi a água dos temporais
E estranhamente incômoda, como a alvura dos afogados, retornei à este cais.

Eu trago uma estória de algas bordada na memória
E ofereço estas mãos de sal e de sangue rajadas.
Eu venho emergindo da cicatriz do tempo,
trazendo esses minutos, esses tesouros perdidos.

Venho do mais fundo do pesadelo
As mãos cortadas de riso,
guardando meu segredo.