sexta-feira, abril 28, 2006

JUSTA HOMENAGEM

Porque aqui dentro
Debruçada nas varandas das retinas
Eu vejo vocês:

Coloridos, doloridos
Seres mágicos, quase mitológicos.
Vocês que me devolveram as cores
O vermelho prá beber da dor
O azul prá arrepiar o nome
O amarelo prá gritar as flores
Preto prá sonhar a lua
O verde dessa nossa dança
E vermelho prá morrer de amores.

Com surpresa eu vi passar a banda
Cantando as coisas que eu tinha desistido.
Aí vieram vocês e inventaram novos sabores.
Eu não imaginava sonhar assim em binários
Eu não imaginava viver uma ilusão digital de sensibilidade
Onde o mundo pode, embora tarde, ser belo.
Vieram vocês, agora não temo, espero:
Juntar retalhos, cacos cortantes, coloridos,
transformar em bordas floridas, nossas estórias cheias de dores.

Vocês, sim. Você também.
Todos nós , aprisionados e libertos pela tela.
Poesia, Prosa, Verso
e essa explosão do encontro
entre leitores,
escritores e paralelas
.

quinta-feira, abril 27, 2006

Dos desencontros

Ele estava deserto, e já fazia tanto tempo.
As folhas secas se acumulavam pelas trilhas que lhe chegavam, e realmente não importava.
Elas tinham um som bonito, se o vento estava com pressa e as desordenava.
Esperava ainda, sem saber ao certo.
Sabia do atraso, talvez o caminho extenso. A vida tem mesmo tantos contratempos.
Dentro, a mobília ordenada de forma confusa, parecia poética. Apenas cobertas pela lágrima seca dos anos.
Mas a casa sempre cheia, os sorrisos fáceis.
Conhecera tantas coisas boas e más. Porque as coisas têm seus espelhos. E o vinho que corria doce amanhecia amargo golpeando a língua. E a poesia inebriante às vezes erguia os dentes e mordia, enfurecida.
Porque o equilíbrio estava todo dentro da espera.
E na página seca da solidão havida um canto sempre verde e úmido, porque era dela. E ela viria, com seus cabelos perfumados de hera, sua voz de saudade e a pele longa de distância. Ela viria. Porque ele sabia que sem ela nunca terminaria a página de sua própria história.

segunda-feira, abril 24, 2006

Ao meu redor

Os olhos às vezes ardem assim, só por arder
E fica esse sei-não-sei estacionado na garganta.
E eu conto que eles não resolvem nada, mas não sei, tem hora que nem esse eu mesma me escuta.
E às vezes falta colo e eu sinto que tenho, falta espanto que me caminha faceiro. Sobra essa sensação de pegadas macias, quase felina. E eu me sinto tão ridícula. Com uma palavra na mão querendo ameaçar as sombras. Eu que às vezes tenho medo. Mas eu não consigo só olhar, e essa dor que não é minha fica alfinetando a memória.
Ficam os olhos assim ardendo.
A sensação de algo urgente por fazer.
E a impressão de não poder fazer nada.
Eu espero, e em algum lugar creio, um dia haverá justiça. Senão que graça teria passar por tudo isso desse lado? Mas eu ainda tenho minha voz e estas palavras empunhadas. E quem teve a palavras cortadas? Tantos gritos e uma voz tão rouca. Eu, apenas muito tola prá apenas deixar passar.

quinta-feira, abril 20, 2006

Eu não queria estar ausente.
É que o tempo me atordoa.
E desculpe se eu estou sempre cansada
mas a pretensão de abraçar o mundo me consome.
Tantas vezes eu me olho no espelho, e posso ver o que tantos vêem:
Uma tola, desgrenhada, arranhada, roxa lá e aqui, tantas cicatrizes mal curadas,
um cansaço incoerente se arrastando pelos anos.
Às vezes eu posso ver no espelho e enxergo dentro espaços azuis e flores brancas.
Eu escrevo um verso vermelho quando dói muito, eu mergulho e bebo dele,
quando triste eu escrevo cinza e me exilo. Quando forte eu espalho tintas e manchas e cores,
eu caminho em meu norte sem saber quando. Nunca fui rosa. Não sei ser. Cores confusas,
texto sem métrica, transbordo quereres, ardências, urgências.
Eu não queria estar ausente.
Mas há sempre tanto por fazer.
E para ti eu volto cansada,
as unhas gastas, a voz rouca, e um sorriso bom de luta. Ah, porque esse dia-a-dia me destrói
e me edifica, seduz e depois decepciona, rodopia e volta só prá ser outra vez.
E eu deixo que seja, a dança é esta, e tanto dói quanto levanta. Desde que meu caminho
volte sempre até você.
Com teu abraço calmo, como se fosse o mundo.

segunda-feira, abril 17, 2006

Páscoa

Ainda que tanto seja mentira
E nada possa ser feito
Diz.
Ainda que a idéia se exile de ti
E não se encontre poesia meio ao caos
Diz.
Ainda que a poeira fina te cubra os anos
E a dor embolore os teus pilares
Diz.
Ainda que o amor, maior que a sorte
Ferido te abandone os passos
Diz.
Ainda que a chama azul do olhar que sonha
Tênue, tísica, lance suas últimas sombras
Diz.
Entoa a canção
Que secreta se anuncia
Ergue os olhos de estrela
E ao mestre maior
Poeta da vida
Diz:
Obrigado.

terça-feira, abril 11, 2006

Vem cá que eu preciso te dizer
Não é à toa e não acaba,
Esse dia-a-dia nunca igual
Quando eu estou com você.

É tão natural ser ao seu lado
Quando me olha com olhos de riso
Quando em silêncio passeia minha pele
Sempre desvendando arrepio novo na geografia.

É normal sempre faltar alguma coisa,
Porque a vida acontece de qualquer jeito
Fora dos planos, das coisas que a gente queria,
Mas vais ser enquanto eu anoitecer no teu peito.

Vem cá, eu preciso dizer
Não é a toa tanto por fazer
É que eu te amo
E preciso que você saiba
Todo dia
E mais.

terça-feira, abril 04, 2006

OUTONO

Porque uma brisa gelada soprou sobre as palavras
Arquearam o corpo, arrepiadas,
Como fazem provando novos sabores.

A chuva suave descortinou a madrugada
Mantendo orvalhado o sol tímidoque chamou o dia.

Outono levanta-se gentilmente,
Beijando leve as faces do verão que cora,
Escondendo o rosto noutra parte.

É o outono, todo ele sedução e segredos acolhedores.
É o outono, que encontra minhas varandas acesas
Meu sorriso posto sobre a mesa
E um convite para novas cores.