quinta-feira, abril 27, 2006

Dos desencontros

Ele estava deserto, e já fazia tanto tempo.
As folhas secas se acumulavam pelas trilhas que lhe chegavam, e realmente não importava.
Elas tinham um som bonito, se o vento estava com pressa e as desordenava.
Esperava ainda, sem saber ao certo.
Sabia do atraso, talvez o caminho extenso. A vida tem mesmo tantos contratempos.
Dentro, a mobília ordenada de forma confusa, parecia poética. Apenas cobertas pela lágrima seca dos anos.
Mas a casa sempre cheia, os sorrisos fáceis.
Conhecera tantas coisas boas e más. Porque as coisas têm seus espelhos. E o vinho que corria doce amanhecia amargo golpeando a língua. E a poesia inebriante às vezes erguia os dentes e mordia, enfurecida.
Porque o equilíbrio estava todo dentro da espera.
E na página seca da solidão havida um canto sempre verde e úmido, porque era dela. E ela viria, com seus cabelos perfumados de hera, sua voz de saudade e a pele longa de distância. Ela viria. Porque ele sabia que sem ela nunca terminaria a página de sua própria história.

6 comentários:

pedro pan disse...

, [des]encontros. ele & ela. escrevendo, reescrevendo suas páginas. com lágrimas, sorrisos e seus caminhos sempre se tocam, porém,"a poesia inebriante às vezes erguia os dentes e mordia, enfurecida"...
te linkei em quimeras.
|beijos meus|

camila disse...

as vezes suas palavras me deixam sem nenhuma.

A czarina das quinquilharias disse...

"a lágrima seca dos anos"
palmas
(e me sinto mal por não saber der poética)suspiros...
cza-cza.

Octávio Roggiero Neto disse...

Vem do Sul um vento que varre a mesmice. Traz perfume roxo e a melancolia do crepúsculo.
Seus poemas são daqueles que se lê va-ga-ro-sa-men-te, saboreando-se cada imagem, cada palavra inesperada.
Gastei uns três minutos me encontrando nos "desencontros" e ganhei a tarde em enternecimento.

Estrela (radiante)

rocky shade metal disse...

no meio do deserto sempre há um grã de vida.

da gaveta disse...

"o vinho que corria doce amanhecia amargo golpeando a língua"
nossa!

acho que tudo amanhece amargo...
a vida amanhece amarga todos os dias.
e temos que fazê-la doce ao longo dele.