quarta-feira, maio 24, 2006

Porque é preciso, é preciso, é preciso.


Acordou com uma sensação estranha. Pressão nos ouvidos, cansaço, uma estranha leveza. Parou no espelho e olhou dentro. Dentro do oco, do vazio de todas as coisas, e soube que não acreditava mais. Atônita abriu a janela, e tentou encher-se de cores: céu azul, flores, sorrisos. Mas nada. Àquela hora, céu de chumbo e um horizonte cortado de prédios absolutos e frios. Sentiu-se apenas uma. Vestiu-se como um número, tomou café e escovou os dentes como um cadastro perdido entre tantos. Desceu à rua, cheia de gente tão vazia. Tão vazia e agora ela. E temia. Tudo comum, vulgar, poesia nenhuma para abrir seu dia. Não podia acreditar em mais nada, porque sabia. Eles haviam enfim vencido, tingindo cada pensamento com o mesmo chumbo do dia. Era frio, e fazia um outono sem graça. Mecanicamente enfileirou os passos. Assalto na esquina, reação e o barulho seco, passo pro lado e não sujar os sapatos. Porque aquela tinta do homem no chão escorria. E logo à frente uma senhora brigou com a calçada e tomou uma rasteira indo ao chão: desvio e pressa, o relógio cadenciando espaços. Até que mais à frente, meio àquela gente mecânica da praça, seus olhos largaram âncoras e choveu no dia cinza do seu olhar: Tanta calçada, e bem no meio, uma trinca improvável e uma pequena flor lilás, insistindo acontecer. Como quebrado o encanto, a poesia latejou nas veias, ganhou cor, e nervos, para arder o dia. Ali cantou a flor. Porque era preciso.

11 comentários:

meu paredro disse...

Floresceu na contra-mão atrapalhando o tráfego :)

Briza disse...

é preciso, é preciso, é preciso.

A czarina das quinquilharias disse...

e quando floresce o canto, a gente fica lilás e intrépido também.
***
"a tinta do homem no chão escorria" brrrr

rocky shade metal disse...

Sempre acontece.
Mesmo que em meio às calçadas petrificadas
A vida está e sempre estará nos olhos de quem vê.
E não na fachada que o homem produz a fim de burlar a "realeza".

beijos.

Leandro Jardim disse...

E quanta indiferença não deve ter sofrido aquela flor? E quantos mundos cinzas não devem ter sido coloridos após seu toque lilás?

A vida tem cada caminho, mesmo o mesmo pode ser novo, e de novo, e de novo...

Que belo conto poético!
bjs

bjs

ricardo disse...

as vezes as cores estão onde a gente menos espera.
(mas quando a gente não pode mesmo esperar, basta vir aqui e ler essas tuas coisas...)

:)

Múcio Góes disse...

porque de "porquês" é que se vive... e as cores das esquinas cinzas podem mudar ante nosso olhar, sempre!

:*

Nirton Venancio disse...

Cheguei aqui através do blog do Leandro. Gostei dos seus escritos. Voltarei sempre.

pedro pan disse...

, preciso cantar flor em meio a tantos vazios.
dias sem poesias, não são nada bons.
|beijos meus|

Moacir Caetano disse...

é sempre preciso!

Octávio Roggiero Neto disse...

Pelas frinchas de tuas palavras observo uma renovação paulatina. Esse "porque era preciso" é tudo o que eu queria ler: a perseverança ainda te elevará além das estrelas...