segunda-feira, junho 26, 2006

Da pressa.

Porque quando hoje, o Tempo,
ensimesmado, foge das rotinas.

**Curtinha assim, pontuando a centésima postagem.

quinta-feira, junho 22, 2006

Dentro do escuro.

Porque quando é noite, e o silêncio
Eu fico a cantarolar baixinho para adormecer os medos.
E da ausência faço muros onde escrevo
Cada palavra que arranhando foge à alma.
Porque se me acreditas pálida,
é que a lua se pôs atrás dessas olheiras
Enamorada pela alvura de um sorriso.
E quando tudo assim, incerto e vago
Não nego, eu sangro e tinjo as águas
Colorindo a solidão de outros espelhos.
Porque verso é algo assim de arisco traço
que quando pressente lágrima, desbota.
Eu sigo antecedendo auroras várias
Temendo amor (tecer)
Rotinas cálidas.

quarta-feira, junho 21, 2006

Também acontece.

E durante dois dias e duas noites fui prisioneira.
Prisioneira de um delírio quente, o mal na tocaia.
Por dois dias, duas noites.
Fui galope dessa febre que refletiu tão bem a alma:
Angústia, urgência, o precipício de todas as coisas.
Agora o dragão de dentro se aquieta, não dorme: aguarda.
E eu sei tão bem o que é não ter respostas
E eu sei tão bem de não saber perguntas
E eu que nada sei justificando as horas.
O fôlego suspenso, por um fio de esperança
O coração vai medroso, é tanto o medo de se desmontar.
A razão baixa os olhos, enche o peito e segue reto

Mais uma vez: porque o coração tem razões que a própria razão desconhece.

terça-feira, junho 20, 2006

Acontece.

- Ei, você. Acorda. Há tanto o que entender! (sacudindo seu ombro).

- Me esquece. Não quero saber (emburrado, olhos fundos, se enrrola de novo).

- Mas eu preciso tanto te ouvir. Explicar, esquecer. Sozinhos não podemos, você sabe, não podemos viver (os olhos úmidos).

-E quem disse que eu quero? Que vale a pena? Se quando eu acerto o compasso você perde a dança, tenta teorizar os passos e não me aquece? Não quero, esquece.

-Mas eu posso tentar mais uma vez? Apenas uma, quem sabe agora eu tenha entendido o ritmo, talvez não haja tantos porquês. Deixarei que você me conduza e serei mais leve, tentarei florir mais graça e terei telas cheias de dentes - e sorrisos.

-E você consegue? Quantas vezes, e cada vez que muda o tom você perde o passo, você pàra e fica olhando seus pés, tentando entender se foram os saltos, ao invés de se concentrar e voltar à dança, à festa, ao frisson.

-É, talvez eu não saiba como. Mas preciso de você (estende as mãos).
-A verdade é que acostumei aos seus tropeços (segura-lhe as mãos).

Olham-se demoradamente.
Porque o coração tem razões que a própria razão desconhece.

sexta-feira, junho 16, 2006

Depois.

Tão sozinha
E o silêncio,
ensurdecedor.
Segundos rufam tambores:
Hinos de guerra
Lamentos de amor.
Fui assim antes
que a idéia pudesse acrescentar-me um nome;
Trilha funda no vai-vém das pupilas.
A sensação é espaçosa e aperta o peito:
Em tudo
Nada há que se aquiete.
Na linha precária
Cicatriz em verso converte
Todo o fio que o acaso tece.
Eu, apenas.
E o frio, pois nada esquece.

quarta-feira, junho 14, 2006

Dentro do nó.

Prá falar de hoje, latejando ontem.
Prá tentar drenar da ausência, a dor.
Prá decifrar a dialéctica do coração.

Secar devagar entre as páginas de um livro
Guardada em essência na memória dos versos.
Embriagar-me de poesia e ser apenas etérea.

Seria necessário retirar toda a urgência de ser
E a primata urgência de respirar.
Para ouvir em som puro a ressonância clara
De cada emoção pontuando a eternidade.

Mas eu.
E a dor tem um som agudo e constante
entremeado pelos rangidos da angústia.
E eu não
sei.

Talvez todo descompasso seja eu
Que nunca encontrei ritmo nos sorrisos
Que nunca soube intercalar humores e abismos
Derramando apenas todo o reflexo em intensidade
Porque tudo gravado na pele delgada dos sentimentos.
Porque talvez eu nunca tenha compreendido
Que o objetivo é a jornada e não
Cada paisagem estampada
Na retina.

segunda-feira, junho 12, 2006

Agora.

Agora o ar que falta.
Assombro, descaso, cansaço mantido.
Sob a pele velhas bolhas se levantam,
e um vento antigo busca frestas, curioso.
E como ardem novas velhas chamas
e como a eterna busca 'inda me reina.
E o mais provável é que talvez nunca;
e de saber toda a idéia que visita, teima.
É assim que vai o dia e beijo a noite
e ao aproximar dos meus lábios tal vertigem
escuresço a tontura e bebo os passos que ainda restam.

sexta-feira, junho 09, 2006

Antes.

Um minuto antes, como à beira de todas as coisas.
Como se houvesse uma margem indelével no princípio.
E adiante, a visão embaçada, o cheiro do medo, o vazio.
O vazio. Tão insalubre não saber.
Tão assustador precipitar-se sobre a iminência e não.
Apenas a amplitude da indecisão.
Quisera dias calmos e passos distraídos, mas a fome antiga.
O chão que não chega e tudo o que nunca bastou.
Como esperar que alguém compreenda?
Que direção dar aos passos sob a garoa?
Como desmanchar todas as pétalas
e inventar outro nome que não seja flor?
Mas eu preciso.

quarta-feira, junho 07, 2006

Do silêncio.

É quando alguma coisa fica bufando lá no fundo, inquieta.
E não parece ser segredo, mas eu simplesmente calo.
Não era assim, mas se assoma a violência da pulsação.
Cavo trincheiras profundas no pensamento, tocaio suspiros
e censuro mesmo alguns sonhos puramente românticos.
Mas a coisa toda continua e eu realmente não sei mais.
Onde a falsa calma daqueles dias cinzentos em que eu podia,
ao menos, tentar acreditar na simplicidade de sentir os dias.
Eu agora estou acuada por isso que arranha o chão onde eu tento
e amedrontada pela perspectiva do horizonte.