quinta-feira, agosto 31, 2006

Tinturas.

Tinta
Para sempre cicatriz
Meu receio.
Sol que se põe quieto
Em meu peito.
Tinto
vinho seco que reclama a sede
Tinta
ansiosa cor a debruçar parede.
Tinto
O coração exposto
Partido ao meio.
Tinta
Palavra posta
Mal feito.
Tinto
Brincando como se fosse amor
Tinta
Tentando mascarar a dor.
E tintos pela cor de seus mistérios
Adormeceram em separados hemisférios.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Diálogo do Eclipse.

-Conta.
-Não.
-Mas não tá doendo?
-Tá.
-Diz então. Onde foi? Como foi?
-Não posso.
-Ah. Mas eu queria tanto saber. Conta.
(silêncio)

Foi tanto tempo assim, distante de saber. Foi tanto tempo assim, tão longo prá saber. Foi tão certeiro assim, ferimento prá morrer. Foi tanto ter assim, tempo não basta prá esquecer. Foi bom saber-te assim, amor para viver. E foi amor assim, tanto de não caber. E foi por isso assim, aqui vivendo a te querer.

(engole seco)
-É que você não entenderia.
-Você não tenta dizer.
-Eu esqueceria.
-Mas eu não sou você.
-Amo.
(silêncio)

E coração partido de agora, rebrilha a dor que comemora seu quinhão. Sabia. Não deveria dizê-lo, pois a dor rege tudo que aflora, e o sol, o sol sobre a delicadeza do sentimento que chora. Tarde. Recolheria seus versos minguados e tristes e voltaria ao hemisfério congelado de seus versos. Musa assim. Musa morta e branca idealizada em versos a que não pertence.

-Espera um pouco mais.
-Não posso.
-Mas...
-É tarde.
-Mal começamos...
-...?

Beijo.
Um instante apenas.
Amanhece.

Ele espera, um dia.
Ela impera, em paz.

segunda-feira, agosto 28, 2006

E se...II parte

E se?

E se eu não sou aquilo o que digo
Porque tudo isso
Se parece tanto comigo?

E porque eu pergunto, se nada responde
Como se a questão
Impedisse a aurora?

E se a verdade se estilhaça à toa
Porque guardamo-la
Com tanta vaidade?

E se o que cabe em nós não nos pertence,
E se amedronta frágil, sob a gente,
Por que a vida lhe arreganha os dentes?

E o que esperarmos frente ao nunca,
Se não somos nada, senão a confissão do agora,
Acontecendo de novo e a cada instante?

quarta-feira, agosto 23, 2006

E se...

E se hoje eu arriscasse amanhecer mais azul
E o azul borrasse tudo o que eu penso?
E seu eu conseguisse ser menos úmida
E menos hera crescesse nas frestas do que eu sinto
Deixando aparecer quem eu sou?
E se eu desistisse, e acompanhasse a correnteza macia?
E seu acordasse borboleta, colorindo a idéia de sê-la?
E se o silêncio ganhasse asas, e seguindo o nascente, partisse?
E seu eu pudesse ser apenas o que sou
Sem que nenhum desejo pousasse triste em minhas tardes
Sem que sonho algum beijasse os meus caminhos
Sem que dor alguma rabiscasse meus espelhos?
E se eu despisse a alma que me reveste a angústia
E entrasse verso no teu pensamento?
E se você, distraidamente inquieto,
Pousasse suas mãos sobre o instante exato
E partisse em mil segundos minha essência?

segunda-feira, agosto 21, 2006

Dias sem vento.

E nesses dias sem vento
ficam os poemas assim estagnados nos dedos
e o cheiro parado do que não precipita.
Apenas o enjôo permanente adotado de maneira morna
E a sensação equivalente das notícias amareladas,
tempo gasto, tempestade represada dentro.
E nesses dias sem vento
as idéias não cavalgam os cabelos, não balançam ausentes:
As idéias afiadas cravam dentes, garras, intentos.
Apenas a mão forte da razão cala a tapas
O grito, a sorte, o lamento.
E nesses dias sem vento
Derramo o corpo, qualquer canto
alheia ao encanto da poesia vária com sede de vôo.
Apenas estaciono as vontades no comprimento
Mirando o horizonte a afiar um verso vago
Que hei de cravar na mediatriz do tempo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Das palavras.

- É que eu gosto das palavras, sabe?
Palavras são peças
De um jogo de armar
Posso ter um castelo
Posso ser mesmo o elo
Unindo inverso
e o paralelo.
Bem semeadas,
palavras dão flor.
Quando empunhadas,
causam a dor.
Palavras megeras
Palavras queridas
Que vestem poemas
No baile das rimas.
Palavra é passageira -
No revés da mentira,
A palavra,
Palavra certeira.
Palavra é asa
aprendendo a voar.
Palavra menina
Cresce ligeira
E aprende a ensinar.

**Inspirada no que você disse, Bela Caleidoscópica.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Incessantemente.

Incessantemente.
Incessantemente.
Insistentemente.
Repetidamente.
Essa letra
luz elétrica
Essa idéia
Sempre acesa
Essa fome
essa urgência
Tarde exposta
sobre a mesa.
Porque não cala
porque não quer
porque não pára
E me requer.
Sorrisos
Suaves
Semblantes
Rapidamente mariposa
Tresloucada choca
o vidro, a luz
idéia solta
insistentemente
repetidamente
incessantemente
Até que alguém socorra
e cole asas à poesia
do papel.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Do dia-a-dia

*Para Paco

Os dias tem sido tão bonitos.
Quando entro no carro o volante ganha asas,
não tenho mais vontade de chegar.
Pena o pouco tempo, a vida tanta.
Toda manhã a lua vem me visitar.
Cada dia veste uma roupa mais bonita.
E o sol, com ciúmes,
veste vermelho e vem vigiar...
Eu hoje te encontrei como há tanto tempo.
É só assim que a gente percebe como memória é coisa viva,
que lambe os nossos dedos e late no inverno.
Tinha pôr-de-sol de cinema.
Tinha vontade de pausar o tempo.
Vontade de viver mais devagar.
Tinha o olho de vidro que nada refletiu
Guardou para si os segredos e apagou,
Partiu.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Preciso

Eu preciso de repentes inexatos
E escancarar a memória em sol ao meio-dia.
Eu preciso assim, da vida inteira
Acontecendo acontecido, passo arrebatado
grande ao nascer, solidão primeira.
E quando eu penso em acalmar meus olhos
vem a vida, em mar revolto
tomba o centro, espuma o nó.
Esperança de lastro,
porta estandarte redentor.
Eu preciso de sorrisos grandes
navegando a tempestade de voar.
Clar [a] idade.
Eu preciso acreditar no amor,
temível como o mar e seus escuros.
Eu preciso aliviar a dor só de ser humana.
Eu preciso
silêncio discreto de montanhas,
pavor secreto das entranhas,
Para vestir de novo a cor.

quarta-feira, agosto 09, 2006

POESIA LEVE

Escrevo não.
Transcrevo.
Transpiro.
Transcendo.
Sentir pinga o papel
E da inundação brota a paisagem.
Ver suplica mãos
e vou bordando letras à tela.
Nasci incompleta.
Inexata.
Imprecisa.
Poesia preenche os poros
E torna o caminhar possível.
Porque eu,
perdida entre tantas lacunas.
Espaços mortos,
brecha impossíveis.
A singularidade das minhas ausências.
Eu preciso de olhos.
Inquietudes.
Intensidades.
O tempo rasga e me dissolve,
aos poucos
borrando
a mensagem.
Procuro caminho,
que leve, sobrevoe e me entregue:
para o mundo,
meu mais secreto sorriso.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Queria...

Eu queria mesmo é ser pessoa de coragem. De me jogar na vida assim. Sem pudores, pára-quedas, dicionários, roteiros, traçados. Eu queria saber viver de repente, sabendo que a vida assim passa, e sobra pouco ou nada na gente. Queria não ter tantos poréns. Nem tantas ações calculadas. Viver o hoje sem planejar o daqui a pouco. Mas acontece que eu sou pessoa de planejamentos detalhados e kit de primeiros socorros. Porque se doer. Ah. E sempre dói. E às vezes eu me pergunto então por quê. Mas sem mapa, eu não sei chegar. E eu queria saber ir, mesmo sem saber prá onde. Quando, ou porque. Subir a montanha mais difícil sem saber prá que, e chegar lá só prá ver. A lua, a lua nascer. E quando der vontade, ficar triste, chorar tudo o que vier, quando for. Não engolir nós, abraços ou sorrisos. Eu queria mesmo é ser pessoa de coragem...

quinta-feira, agosto 03, 2006

Nostalgia.

Acorda.
Vem ver a poesia de um dia de inverno.
Cinza e silêncio.
A saudade arde os olhos como a primeira luz.
Saudade de tudo o que não vivi:
amigo que não conheci
amor que não amei
a dor que não calei
a flor que eu não sorri
e tudo o que não falei.
Uma saudade mansa de sentir diferente
pés descalços na grama e
um tempo maior pela frente.
Eu sinto saudade sua.
Dos seus olhos passeando minhas letras.
E uma vontade absurda de mergulhar nas palavras
traçando na página qualquer louco rabisco.
Ou me dissolver num verso e adoçar o dia.
Nostalgia.
Uma palavra quieta, um vento antigo,
a confusão discreta que vai sempre estar comigo.

terça-feira, agosto 01, 2006

Contra o Tempo.

Vivo morrendo.
Por tentar conter segundos que escorrem ágeis dos meus pulsos.
Vivo sofrendo, porque a cada batida,
coração em mim a cada passo termina.
E quem duvida?
Já nascer com pena irremediável,
doença incurável,
que ciência nenhuma no mundo tem cura:
Passar do tempo.
A escritura das rugas como testamento
O cabelo que vem fácil como vai
O gemido no vento.
Ao passar assim,
tão amargo parece o tempo.
Mas se lembrar dos olhos, antiga crença,
a paz que aproxima,
o colorido que aumenta,
Os sorrisos borrados de lágrimas.
E todos os abraços que se possa apertar,
Que o ser humano é besta fera
Mas também amor raro,
Que, como a flor, feito prá murchar.
Mas há que o pensamento,
e semeie idéias,
principal sorriso,
e despindo a malha da palavra amigo
Reconheça essência,
livre enfim de dor.