quarta-feira, agosto 30, 2006

Diálogo do Eclipse.

-Conta.
-Não.
-Mas não tá doendo?
-Tá.
-Diz então. Onde foi? Como foi?
-Não posso.
-Ah. Mas eu queria tanto saber. Conta.
(silêncio)

Foi tanto tempo assim, distante de saber. Foi tanto tempo assim, tão longo prá saber. Foi tão certeiro assim, ferimento prá morrer. Foi tanto ter assim, tempo não basta prá esquecer. Foi bom saber-te assim, amor para viver. E foi amor assim, tanto de não caber. E foi por isso assim, aqui vivendo a te querer.

(engole seco)
-É que você não entenderia.
-Você não tenta dizer.
-Eu esqueceria.
-Mas eu não sou você.
-Amo.
(silêncio)

E coração partido de agora, rebrilha a dor que comemora seu quinhão. Sabia. Não deveria dizê-lo, pois a dor rege tudo que aflora, e o sol, o sol sobre a delicadeza do sentimento que chora. Tarde. Recolheria seus versos minguados e tristes e voltaria ao hemisfério congelado de seus versos. Musa assim. Musa morta e branca idealizada em versos a que não pertence.

-Espera um pouco mais.
-Não posso.
-Mas...
-É tarde.
-Mal começamos...
-...?

Beijo.
Um instante apenas.
Amanhece.

Ele espera, um dia.
Ela impera, em paz.

17 comentários:

Elenita disse...

caramba... eu sou sua fã demais...
texto incrível, incrível...

bjo gigantesco pra vc! =*

ps. vou reproduzir no meu blog,
depois aviso e faço o link pra vc...

rocky shade metal disse...

Nossa.
Alguém uma vez me disse que eles não entendem mesmo.
Que não adianta.
Que a isso cabe a nós mulheres.
Mas o que custa tentar?
Pode ser que sim!

Beijo.

www.diariodemorte.blig.ig.com.br

diovvani disse...

Bebendo... Um pouco das cores líricas de sua paisagem. Abraço.

Beanes disse...

LINDEZA!

Octávio Roggiero Neto disse...

Sim, querida Rayanne, minha companheira onírica, sem dúvida que é melhor ser alegre que ser triste, como bem cantava o poeta. Acontece que na mesma canção o próprio Vinícius também sustentava que pra fazer o samba era preciso "um bocado de tristeza". Há quem diga que o impulso por escrever emerge de um incômodo do escritor com algo. Esta até que é uma perspectiva razoável acerca do porquê nos debruçamos sobre papéis sem fim, mas talvez seja uma explicação insuficiente, porque todos estamos insatisfeitos com alguma coisa em quase toda a nossa vida, se não toda ela, seja porque pretendemos um salário melhor, porque não encontramos um grande amor, ou pior, insatisfeitos apenas por estar. O fato é que percebo que de há muito, os poetas sobretudo, temos uma tendência à uma exaltação, um elogio à solidão, que deve ser atacada impiedosamente por aqueles que, como você, consideram que é melhor ser alegre que ser triste, sem senões. Não seria o caso de encarar a vida com pieguice ou à guisa de Pollyana, mas ter consciência daquilo que corrói o ser humano e daquilo que o edifica. Pra aí sim, repelir o que nos é danoso e exercitar o que nos faz ser melhores. Porque a verdadeira obra está nas entrelinhas de cada dia.
Té mais ler, poetisa!

A czarina das quinquilharias disse...

melhor assim, talvez?
puxa todo mundo fica dizendo que sumi, mas eu só demorei uns dois, três dias a mais que o normal pra postar as coisas... hihi
beijos!

cra disse...

acredito que as estrelas não colaboram em nada para a suavidade das coisas. isso para não dizer sobre o transtorno evidente que elas causam a algumas naturezas paulistas. para quem não sabe separar as coisas as estrelas não são apenas estrelas.

cra disse...

outra refeição dentada. preciso de um totem. uma luva. e de um pedreiro bonito. 'o céu! tampa sombria da imensa marmita...' diz baudelaire. saúdo e beijo. até mais, moça.

paula disse...

encontros e desencontros...
Lindão!! :)

Múcio Góes disse...

e assim, o que era um fez-se fim. e dor se fez, enfim.


belo.
bjo.

Ju disse...

Admiro vc! Sempre me encanto quando venho aqui. Sempre!

Beijos

douglas D. disse...

espera,
pelo que não chegará.

pedro pan disse...

, os olhares deliram em teu diálogo. logo as sensações se fazem presentes. emoções em formas de palavras...
|beijos meus|

Nirton Venancio disse...

À dor que rege tudo, seus versos em prosa amenizam. Belo texto!

Del disse...

uau...
estou sem palavras.

Leandro Jardim disse...

lindo como sempre e com gran finale!

Mendoscopia disse...

Só hj li esse post, e lá no blog da Elenita. Não resisti em vir aqui olhar. M-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o!

Bjo,