sexta-feira, setembro 29, 2006

UM ANO DE CONTRATEMPO.

Há um ano atrás voltei a respirar.
Fundo azul de letras brancas,
Brincando estrelas prá brilhar.
Esconderijo nada secreto de todos os versos
Que me assaltam o sono na madrugada.
Abrigo de palavras,
malha de sujeitos e verbos.
Renda viva de sorrisos, reflexos e sensações partilhadas.
Entrega onde o tempo
Salta aos dedos,
Foge aos pulsos.
Essa entrega contra o vento
Perfuma os medos,
Floresce impulsos.
Meu amor, meu rebento,
Meu Contratempo.

**Ao seu primeiro aninho, criança**

quarta-feira, setembro 27, 2006

Era a chuva a embalar
o sonho do vento
que se esvai.

Era idílio de brisa ou furacão,
era mais...

Era o prenúncio da mesma dor antiga
Era o precipício quando acaba a imensidão
Era a tarde triste nascendo atrás da estória.

E era tão conhecida aquela sensação
Aquele telefonema mudo suspenso no ar
E o sinal de ocupado nos meses depois

Quando dobrou a esquina do sorriso sabia,
Não havia mais nada, nem suspiro nem pássaro.
Depois do último dente
Passo,
Escada.

Atravessou a porta do juízo e ganhou a rua.
Fora, a chuva lavou qualquer chance de grito
Guardou para si toda a dor; o vazio. Somente o vazio.
O vazio traçando rumos infindáveis dentro.

Porque era assim. Ao rio os pulsos, as horas.
Dissolvidos na água que fugia escura.
Porque nunca mais é ser tão triste.
Porque fechar a porta amputa tanta ternura.

Pensou em voltar e não. Tantas vezes. Até.
Mas a vida vai bordando escamas nesse “nãos”
E de repente a gente volta a flutuar...
Porque nada e tudo se aproximam tanto.


**Publicado no Secar ao Vento(http://www.secaraovento.blogger.com.br/index.html), Edição lençóis.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Do que passou.

Fito o feito:
Fomos fato
Sem efeito.

sexta-feira, setembro 22, 2006

WWW.

Quero um poema como um grito
Rompendo a mudez paralítica do verbo;
Quero romper a estática, a dialéctica,
Alçar vôo emblemática, ave poética.
Quero menos espaços e mais abraços
Fugir à prática matemática das horas.
Mas,
tenho apenas www.
e este amor,
maior que o mundo.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Da Chuva.

Na sinfonia da espera
Ela primeiro precipita
Depois, primavera.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Da Amizade.

Preciso
Da palavra exata no momento exato
Do gesto impensado e do espaço branco.
Preciso
Do teu choro e do teu riso
Teu amparo, desamparo
Teu abrigo.
Preciso
Do teu fogo amigo
Do teu silêncio ou do acaso,
Teu sentido.
Preciso
Do teu ruído a preencher espaço
Tua mudez, teu leve traço.
Preciso
[Re]conhecer na distância clara
Tudo o que a poesia cala,
Sobre teu ser querido.
Preciso
Saber-te riso
Encontrar-te perto
E guardar-te dentro,
Para sempre amigo.

**Para você, Gi. E o melhor dos aniversários.

quinta-feira, setembro 14, 2006

CURTAS

* Eu me debruço no poço dos teus olhos
E repouso afogada na floresta do teu peito*
**prá você.

*Prosa é o pluriverso da poesia
Quando goza*

*Ando tão à flor da pele
pele em flor
pêlo apela
dor*

*Pedaço de sal
No céu da pele.
Resquício soluça:
No som, sa[u]dade.*

*Raso em mim
desatenta, a medida dos teus anos
Claro equívoco
desses tantos desenganos *

quarta-feira, setembro 13, 2006

DA FALTA

FALTA UM POEMA
FALTA UM LUGAR
FALTA DE AR.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Bem?

Você diz que está tudo bem
e eu acredito.
Acendo minhas luzes e olho no espelho.
Você sorri de volta e eu quase me identifico.
Posso sentir o peito estremecer
naquela velha dor aguda e sem jeito.
O mundo parece desabar
Cada volta é mais funda e nunca acaba;
Mas se alguém perguntar por mim
você dirá que está tudo perfeito.
Hoje é um daqueles dias em que a maré enche os olhos
e eu me amiúdo tanto, sinto tanto frio.
Mas você se mostra tão forte.
E as balas que em você ricocheteiam
atravessam meu peito.
Eu tenho que seguir recolhendo pedaços
remendando verbos,
construindo um abrigo de palavras,
um abrigo anti-aéreo, anti-etéreo.
Mas você é o inverso das palavras.
Você sabe censurar a dor.
Eu olho no espelho e você diz que está tudo bem.
Eu olho no espelho, esse sorriso colado em meu rosto,
e eu quase acredito ser você também.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Galope vermelho.

Palavras soltas
_segredos_
Galopando a rima dos meus medos
_Ágeis_
Saltam sobre os dedos
_Indomáveis_

De relance através dos arvoredos
A vasta crina confundindo o horizonte.

_Vermelho_

Olhar no espelho
O amanhecer
A fonte selvagem

Derramando em pêlo
Pele
Palavras ariscas em tropel
Delineando poesia
Sobre papel.

**Inspirada no belo poema _Indomáveis_, do moço Diovvani <http://www.diovmendonca.blogspot.com/>

terça-feira, setembro 05, 2006

Caminho de volta.

Meados de primavera... como as folhas correm, brincando em tons de marrom e barro pelo vento, ora pela chuva, fica difícil dizer. Difícil dizer das incertezas que se assemelham tão pouco a nada. Apenas essa inquietude, aninhada em mim como se eu fosse o mundo, e em mim coubesse todo o seu drama. Eu sei caminhar sem rumo. Contar gotas de chuva. Sei dar colo. Coisinhas estúpidas. Isso eu sei. Sei da minha intransponível condição humana, sei desse medo – amarelo – que se parece comigo, sei das peças que não se encaixam. Do tic e tac do relógio. E que perdi o ritmo. Andava tudo tão quieto, tão mecânico, estranhamente compassado no tique taque surdo do relógio. Até há pouco fazia tanto sentido. Tanto sentido o trabalho por fazer, a xícara de chá sobre a mesa, a segurança aguardando em casa, o amor. Tanto sentido. Em algum momento entre o tique e o taque houve um golpe surdo, como seu eu tivesse sido atacada por minha própria consciência, um mata-moscas gigante. Caí do relógio. Ele continua correndo e nem sabe que eu estou aqui. Sabendo. Muito embora não compreenda essas coisas estúpidas como acordar, escovar os dentes, tomar café, entrar no carro sair pra trabalhar. Todos os dias, de forma tão massacrante que se torne mecanicamente correta. Voltar pra casa no fim do dia, com mil problemas sem importância martelando a massa encefálica. Mal ter tempo de mastigar uma coisa qualquer, tomar um banho e apagar um pouco. Sem sonhos, por gentileza, o dia foi deveras difícil. Não compreendo onde fica o azul ou o cinza estampados no céu no meio disso tudo. Ou onde renderemos homenagens àquela pobre mariposa tola que se espatifou no vidro do carro. Onde, desfiguradas as cortinas dos olhos lampeja um sonho, janelas fechadas de um mundo sem limites. Onde foi que eu deixei de ser doce, onde foi que eu deixei minha ira, onde foi que eu parei de respirar?

segunda-feira, setembro 04, 2006

O sol abriu os olhos vermelhos do dia.
Depois sorriu devagar, afugentando preguiças noturnas.
Lavou o rosto demoradamente,
fecundando os poros, a pele terrosa rachada e seca.
A melodia era "Uma ode à alegria", Beethoven, sempre.
Depois estendeu-se sobre a tarde, um véu cinza e refrescante.
Como se a chuva não oferecesse a paz, radiante.