terça-feira, setembro 05, 2006

Caminho de volta.

Meados de primavera... como as folhas correm, brincando em tons de marrom e barro pelo vento, ora pela chuva, fica difícil dizer. Difícil dizer das incertezas que se assemelham tão pouco a nada. Apenas essa inquietude, aninhada em mim como se eu fosse o mundo, e em mim coubesse todo o seu drama. Eu sei caminhar sem rumo. Contar gotas de chuva. Sei dar colo. Coisinhas estúpidas. Isso eu sei. Sei da minha intransponível condição humana, sei desse medo – amarelo – que se parece comigo, sei das peças que não se encaixam. Do tic e tac do relógio. E que perdi o ritmo. Andava tudo tão quieto, tão mecânico, estranhamente compassado no tique taque surdo do relógio. Até há pouco fazia tanto sentido. Tanto sentido o trabalho por fazer, a xícara de chá sobre a mesa, a segurança aguardando em casa, o amor. Tanto sentido. Em algum momento entre o tique e o taque houve um golpe surdo, como seu eu tivesse sido atacada por minha própria consciência, um mata-moscas gigante. Caí do relógio. Ele continua correndo e nem sabe que eu estou aqui. Sabendo. Muito embora não compreenda essas coisas estúpidas como acordar, escovar os dentes, tomar café, entrar no carro sair pra trabalhar. Todos os dias, de forma tão massacrante que se torne mecanicamente correta. Voltar pra casa no fim do dia, com mil problemas sem importância martelando a massa encefálica. Mal ter tempo de mastigar uma coisa qualquer, tomar um banho e apagar um pouco. Sem sonhos, por gentileza, o dia foi deveras difícil. Não compreendo onde fica o azul ou o cinza estampados no céu no meio disso tudo. Ou onde renderemos homenagens àquela pobre mariposa tola que se espatifou no vidro do carro. Onde, desfiguradas as cortinas dos olhos lampeja um sonho, janelas fechadas de um mundo sem limites. Onde foi que eu deixei de ser doce, onde foi que eu deixei minha ira, onde foi que eu parei de respirar?

12 comentários:

paula disse...

Não seriam as coisinhas estúpidas que nos fazem seguir respirando?? :)

Mendoscopia disse...

Realmente...talvez, então que assim seja!

'Onde, desfiguradas as cortinas dos olhos lampeja um sonho, janelas fechadas de um mundo sem limites.'

Ainda seguindo o 'talvez', talvez seja preciso parar de respirar um pouco pra não engasgar com essa poeira do mundo!...talvez e só talvez...

bjs, Marcia

rocky shade metal disse...

Lindona..
Um beijao..
de alguém que está sem palavras diante desta maravilha.

Nirton Venancio disse...

"Eu sei caminhar sem rumo. Contar gotas de chuva. Sei dar colo." - não são coisinhas estúpidas, assim com esse jeito de ver, sentir... não, claro que não. E 'tá se contradizendo: não se deixa de ser doce com esse olhar, esse sentimento...
Beijos.

Octávio Roggiero Neto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lubi disse...

Tanto sentimento.
E nem é variação.

Menina, você é perfeita; suas palavras, palavras. E eu te gosto tanto, te admiro tanto que nem sei.

Beijo.

PS: Obrigada por tudo.

Octávio Roggiero Neto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
diovvani disse...

Rayanne, coisas boas "rayaram" aqui na minha cabeça lendo seu texto.

"Onde foi que eu deixei de ser doce, onde foi que eu deixei minha ira, onde foi que eu parei de respirar?"

Você não deixou nada menina... Está tudo aí dentro. Do contrário, não estaria atirando palavras, questionando o mistério da vida.

MontanhosoAbraçoDasMinasGerais.

Marla de Queiroz disse...

E sobrou o quê pra eu te dizer???

Um céu inteiro pra vc com meu maior e melhor SOL-RISO.
Porque vc é tão bonita.

cra disse...

às primeiras palavras que ela gritou
fomos precipitados na sombra.
a sombra era doce e tinha suas vantagens:
esportes, cinema e os sinais de tráfego sempre abertos.
as palavras seguintes não foram palavras de dicionário.
nos tiraram de lá e nos deixaram
as emoções irremediavelmente desertas.
a esta altura ela não mais podia ser encontrada
dentro de nenhum espelho da casa.
ninguém ousava morrer. todos corremos na praia nua.
joão cabral

Múcio Góes disse...

"onde foi que eu deixei de ser...", para que então, fosse.

sempre e cada vez mais, adorando seus textos.

bjo.

cra disse...

desculpe