terça-feira, outubro 31, 2006

Das tentativas.

Eu vou restar acima dos versos cansados
Quando as frases ruirem sob meu silêncio.
Eu vou dissimular até ver se esqueço
E de tanto buscar enfim mereço
Um quedar de palavras exaustas sobre algum abraço.

Eu vou procurar qualquer passo e traçar uma dança
Eu vou caminhar até arrancar do caminho uma trança
Que faça calar, que faça calar, que faça calar.

Eu vou tentar entender porque é que sangra
E fazer de um poema a minha canga
Prá me afastar dos perigos de outro tema.

E quando não restar mais nada além da vertigem
Eu vou mergulhar bem fundo no meio de tudo
E descobrir palavras cobertas de fuligem.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Irrevogável.

Ao contrário do que talvez nunca tenha sido
Eu sou
Nervos em flor,
Desabrochando agudos o alvoroço da primavera.
Estampido seco
Rompendo a tez desgastada.
Eu sou.
Cheiro de terra molhada ontem,
Com urgência de sementes hoje.
Sou o olhar do filho que não será
Entre os dentes em agonia de Gaia.
Eu sou apenas.
Tentando acontecer solavancos repentes
Em que suspiros direi quando cair.
Amor.
Eu sou todas aquelas coisas que ninguém entende
A resposta do que não perguntou.
Disparidade.
O meio inviolável do que secreto teima.
Eu sou continuidade de reticências
Nãos pausados
E entrega.
Eu sou entrega.
A necessidade absurda de jamais ter sabido,
E não ter provado,
Ou tocado,
Partido.
Sou ensaio de perfeição falido.
Sou vôo gauche, tristeza por não saber partida.
Eu sou espera,
E quando tudo em ti mais cala,
Eu terei sido.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Sobre o momento.

A amplitude incomoda a falta de ar. Vou buscando uma janela, pausa, espaço em branco que volte a sonhar. E sigo nublando tempestades dentro, com a inquietude de quem não chegou e nunca sabe se vai chegar. E esse espaço vazio que pode haver, de um lado. E esse silêncio todo, sem poder disfarçar essa ansiedade que conflita com o desejo de estar. Eu não me sinto mais confortável dentro da minha pele, minhas palavras, meu sorriso. O choro retesado até seu limite afogou a garganta. A mudez, agora. Essa paralisia para alcançar a manhã. Mergulho no momento, para camuflar a angústia, deixando as atribulações diárias subirem pelas pontas dos dedos e cobrirem meu corpo, sufocando todos os poros, todos os gritos. Então é tudo um torpor de minutos mornos e horas sucessivas. E fora tudo se agita com a atividade frenética do mundo, suas exigências infantis, a globalização das angústias. Mas eu estou aqui, muda. Esperando vir ou passar. Apenas aqui com meu peso impossível e a minha velha falta de ar.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Ferrugem.

Como ferrugem, devorando os sentidos.
Como uma infecção, latejando a carne,
pulsando pus amarelo, dúvidas quentes.

Olhos embotados do grito, turbidez.
A mão ainda sobre a garganta, reação.
Olhos vermelhos de guerra, confusão.

A cabeça vai pulsando um som tão alto,
O coração vai fibrilando em sobressalto
E dentro, a ferrugem colorindo imagem.

(** constrói prá mim um sorriso? **)

quinta-feira, outubro 19, 2006

Desassossego.

E tudo tanto
que não me pareço comigo.
Deveras, sente?
A dor de mente
a que secreta abrigo.

É quando a poesia pouca
E se me falha a vontade,
A necessidade rouca,
Antes que tarde
A vida louca.

Brinco entre as rimas
um lirismo triste
a cor soberana
Sobre sentimento que insiste.

Eu tenho tanto para cantar
E a voz tamanha falta,
porque o peito se acumula
Em tempestades se estreita,
Para que tudo venha calar.

Eu não entendo o desassossego
Em que passeio em mim de lá prá cá
Não sei para onde vou ou onde chego
Buscando sempre algo que ainda será.

Mas ainda não.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Feliz Aniversário, Estrela-Primeira.

Então fez-se seu dia,
com um novo ano inteiro
para florir todas as mudas que sonhar.

E um véu leve, garoa ousada,
refrescando qualquer possibilidade no ar.
Porque hoje é seu dia, hoje há que sonhar.

Porque quando eu tinha asas curtas emprestei seu vôo,
E foi você que me ensinou as nuances de voar.
Porque despidos de qualquer coincidência humana:

Ser humano é sede
sede que excede
a velocidade de amar.

Então fez-se seu dia.
Comovido, o tempo marejou os olhos,
Uma flor tão rara, uma flor que é toda vôo e que esquece de sonhar.

Amanhece o dia, e eu continuo a respirar poesia
Porque também você floresce
E segue a cativar o ar.

Como um verso que excede em si mesmo a capacidade
De, lírico, absorver e reinventar paisagem:
Mãe, amiga primeira, mulher verdadeira, vertigem de sonhar.

**Para você, mãe, no seu aniversário.
**Que os sorrisos brotem como a insistência da primavera.

terça-feira, outubro 10, 2006

Da escrita.

Porque eu permaneço ausente quando você me transborda.
Porque sempre dói um pouco quando o sorriso.
Porque a distância cresce e a saudade ramifica.
Porque de paisagens provisórias forjam-se elos permanentes.
Porque a brevidade do silêncio não antecipa a intensidade desse grito.

E eu não sei onde fica o som da flor que se abre para a vida entre as buzinas diárias.
E eu não sei se aconteço simplesmente ou transbordo e caio.
E a poesia escorre pelas bordas dos olhos aflita, procurando qualquer que em silêncio tarde.
E as minhas mãos partem em busca das suas, e em binários, não vê.
O silêncio de qualquer resposta é o meu gesto extenso à qualquer pergunta.

Porque eu estou derramada aqui em em ti
E se me lê, me desnuda, envolve, me empresta um sopro de vida
Que, um pouco mais, permanece contido em meu hálito.
Passeia os olhos pela geografia das letras e creia:
Eu estou mais aqui do que em mim jamais estive.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Amálgama

É quando dentro do mais azul dos matizes
Você se pergunta quando vai ser
E nada, nada responde, e o silêncio
Entrecortado pelo som doce do alvorescer.

É quando aquela velha força se acomoda no centro
E um sorriso fresco insiste na aridez diária
Dúvida acampa acerca dos anos e ao redor dos feitos
Na amálgama sôfrega que bafeja dentro.

É quando a aura ilumina sofrida
Prevendo um vulcão que ronrona baixo
A que com sacrifícios vários sustento
Mantendo em trégua a explosão contida.

É quando entre isso ou aquilo
Não há o que se queira ou à vida molde
Porque nunca nada basta e em tudo assimilo
Um equilíbrio partido que não há nada que solde.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Ao contrário, como nunca.

Ao contrário, como não houvera antes.
As imparcialidades repetidas,
As vicissitudes divididas,
Quimeras subtraídas.

Adeus moldado em forma de não,
lança pontiguda sangrando inquietudes.
Ela sentia e dentro, caminhos arguiam passadas suspensas.
No labirinto das veias, um sangue minotauro se perdia.
Na máquina dos medos, uma fábula impossível construía.

E amordaçada, a fúria chuta o peito.
Descompassada, harmonia veste espinhos e se encolhe em botão.
Mas havia sempre, dentro das coisas impossíveis,
um aroma doce pretendendo a baunilha,
a televisão ligada sob a folhagem densa das horas,
dentro de uma bolha de calor ameno,
em segura suspensão.

Ao contrário, nunca houvera antes.
E o tempo infalível, subindo como hera venenosa,
Encobrindo janelas e gritos, solidões invencíveis.
Ao, contrário, dentro, a animação das horas,
coloridas brindando ventos, descolorindo versos,
adormecendo fomes inalienáveis.