terça-feira, novembro 28, 2006

5 minutos.

E deve ser isso assim, seu moço.
É esse agora tão aflito querendo os braços da gente,
Essa vida de boca faminta sugando os sonhos do peito,
Esse tudo prá ontem, porque tudo perdeu a noção do presente.

Dever ser, sim, seu moço.
Ainda ontem, era um tempo menino sorrindo tantos dentes
quanto tinha a mostrar;
E ainda agorinha, eu me lembro, tinha um sonho pequenino
que eu gostava de ninar.
Mas agora tudo é pressa, seu moço.
Porque as pessoas, parece, perderam a dimensão de estar.
Ficam nessa de querer. De se. De será.

Deve ser, sim. E esse seu tropeço, seu moço,
talvez seja esboço prá tú regressar...
Prá um sorriso bobo,
esquecer num abraço
Coisas do cansaço
de um tempo pouco
Eu não entendo, seu moço, porque tanta pressa prá acabar
Acho tão bonito
Isso de ficar
Isso de de estar rindo
De papo pro ar

Que cinco minutos por dia, seu moço,
Não há quem diga que há de faltar...

sexta-feira, novembro 24, 2006

Para a harmonia.

Ouve com cuidado as batidas do pensamento:
Às vezes se forma distância entre a mão e o gesto
E transformados em distância perdemos a compreensão do resto.

Sê gentil com teu coração que sonha:
Ele às vezes pede um instante de ti embrulhado em silêncio
Para acalmar as entranhas que ventam uivando urgências.

Oferece azul aos teus olhos pássaros,
Que eles permanecem em ti mesmo quando ganham vertigens
E calam em si toda a querência de imagens.

Permite calores aos teus braços,
Que buscam tanto outros calores em peles de trocar amores
E não querem quedar cruzados em negação à vida.

Derrama tua boca em outra boca
Revelando todo o fluido dos sentidos,
Que quem se doa dói e nobrece em si todo o juízo
Renovando a arte de acontecer solto no instante.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Correnteza

De algum lugar eu me fiz neste
Para a inadmissível omissão,
Pior mentira contada ao sentimento.
E esse caminho impossível formando leque
sob as pegadas, a ingenuidade do desconhecido.

Os segredos como pétalas desfolhadas se tornaram vento,
E é livre a sensação de absorver o mundo nú de todos os medos.
Um manto doce veste a alma, um manto amor transfere calma.
Amor feito comunhão,
quando a entrega ao acontecer conecta todos os sorrisos.
Como se houvesse um fio transparente ligado ao canto de todas as bocas,
formando uma renda de felicidade onde basta um tique, um tremor,
Para a gargalhada de todos os seres.

E de repente vida,
É como descobrir um sol
gentilmente aninhado entre os dedos
Esperando qualquer fresta de chuva no olhar
Para ser, raiar e rachar a semente.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Do (re) encontro.

Para Marla, Jardim, Grilo, Jordana, João Antônio e demais participantes da sinfonia...


E quando eu desci os passos das nuvens e toquei o chão,
o frio quis ainda saltar alto no estômago, tremulando as mãos.
As mãos suadas e a emoção descompassada.
Um abre-fecha rápido, como um piscar de olhos,
e já num sorriso: amados.

Um abraço de almas em festa, a impressão cognitiva
dos que estavam presentes, apertando os olhos de vontade.
Os abraços eram o mundo, os sorrisos desmanchavam qualquer cansaço.

E depois.

Depois uma dança de almas encantadas, apaixonadas,
desfile de belezas, laços irmanados de carinho, sol, rebrilhos.
Tantas emoções irradiando que todos apanhados, como uma teia.
Uma teia onde tantas almas se lançaram, tornando em infância toda a renda.

E acontecemos sem muito juízo, guiados pela mão doce do universo que era a vida,
Sem muito sono ou sonho porque tanto amor bastava.
Ali nasceram idéias, flores, fatos, sorrisos, lágrimas em verso ou felicidade.
Toda a conspiração da vida, admirada, seguiu os nossos passos.

E veio a despedida, com a sensação de âncoras fundas dentro, pesando longas saudades.
Mas a sensação de que a distância é incapaz de desmanchar o verso em laço,
Letra, abraço: ainda nos protege o amor irmão, o amor amigo, o amor em si,
Traduzido em tudo isso que simplesmente somos: poesia.

Eu amo vocês.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Do parecer.

Pareço moleque
Trazendo canelas enfeitadas de roxo.
Pareço amor
Tanta pele em brasa que me reine.
Pareço menina
Tentando buscar nas palavras um colo impossível.
Pareço poeta
Bordando palavras pra enfeitar a vida.
Pareço uma fera
Os dentes e a fúria à mostra.
Pareço ferida
De longa dor, ferida exposta.
Pareço passarinho
Tão novo, querendo voar, tão fora do ninho.
Pareço estrela
Brilho distante e o olhar esquecido.
Pareço um cachorro bobo
Lambendo cicatrizes inventadas.
Pareço aquele que perde
Correndo desvairado como quem não tem nada.
Pareço rica
Juntando todo o amor reunido.
Pareço piada
Tentando sorrir sob tantas camadas.

E é tanta parecença
Que acabo parecendo comigo.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Do que Será.

O tilintar do tempo - pardo
Sobre os versos cansados.
Ausência debruçada sobre o peito
Teorizando sobre os passos dados.
E quando talvez a certeza se aproxime,
Com seu passo arisco e ritmo desconfiado
Há que erguer da dor uns dentes tristes
E a afugentar longe e fora de qualquer traçado.
Porque a insidiosa orientação das marés sobre a pele
Do verso alcoólico
Do gesto cansado
Do amor sofrido
E em dor desgastado.
Deitar silêncio quando a exaustão tomar palavra
E adormecer sem ter partido
Solidão bilateral de única parte.
O que há sob o véu, através, manhã nenhuma.
E do que será marca alguma fica
Quando há que decifrar em todo
O que amor nenhum explica.

sábado, novembro 11, 2006

Da continuidade.

Porque há sol batendo na janela,
Há dias acampados frente à ela,
E há tantas coisas sob o meu olhar.

Porque tem esse milagre que se chama amigo,
E esse amor tão terno que chega a clarear.

Porque eu tenho poemas nos dedos
e tantas palavras que não quero calar.
Porque todo mundo tem medo,
mas medo é a vontade
que os olhos tem de ser mar.

Porque eu vou até ali buscar um sorriso
Porque essa tristeza uma hora tem que passar.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Das decisões.

Choveu tanto e depois.
Flor seca guardando a memória
amarelecendo duas páginas.

Caminho pincelado em sobretons de vermelho.
Prá onde eu posso, aonde ainda quero ir.

Agora a sensação estática de uma falha,
Algo suspenso ainda, livro aberto, frase inacabada.
Falta saber amanhecer para pontuar enfim o poema.
Com duas gotas.
Ou duas risadas.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Creia.

Creia:
Eu não planejei a ausência de mim deliberada
Não busquei a tristeza diluída em meu sangue
Não tatuei no corpo esta despedida.
Creia.
Cada célula tua que descolo dos meus versos queima
E o carinho que te acerca comigo teima
Mas eu não posso ficar na oferta do meu cansaço.
Creia,
Cada passo que me afasta de ti vai cadenciado
Pelo sonho são, não concretizado
Pelo caminho que me afastou do teu lado.
Creia
Eu vou te guardar a qualquer distância
Pausado amor tão belo que lembrou a infância
Enquanto me dói, me esconjura, esquece e desgasta.



CONTA

Conta.
Conta porque é que eu não evaporei naquele último abraço.
E quando as palavras se uniram formando adeus, não se fez silêncio.
Conta porque um presente tão bonito (amor) consegue doer tanto.
Diz porque é que a gente perde os passos do caminho.
Porque
eu
não
sei.
Diz.
Jura que eu vou saber e me perder de novo na tua pele.
Explica como é que pode a gente perder de vez o caminho do sorriso
E não encontrar mais as trilhas que se fecham no coração.
Conta.
Eu
sei
guardar
segredo.
Conta porque faz tanto tempo e eu não consigo ir
Conta porque é que eu ainda nem sei se eu posso voltar.
Eu só sei desse mistério que se abre em mim
E os passos que não me tiram do lugar.

posted by Rayanne at 7:50 PM

quarta-feira, novembro 01, 2006

*Accipere iudicium*

Eu mergulhei tão fundo,
E agora me prendem os tentáculos da noite.
Eu cheguei ao prelúdio do silêncio:
Meus dedos azulados maestram muda sinfonia.
O coração bate apressado mas não sinto:
É inverno dentro, que intenso se anuncia.

Ainda sinto aquela velha asfixia
Contornando as tentativas em meu peito.
E não é à toa escorrendo pela chuva
Um fio de sangue fugindo deste feito.

O veneno que circula me entorpece
Embora lúcida estou distante, o corpo frio,
E esta morte aparente me entristece.
Eu aguardo cavalgarem estações,
que enfim me tragam primaveras e verões:
Eu aguardo aqui no fundo um novo dia

Porque hoje eu sou metade poesia
Amanhã seja talvez só desencanto.