sexta-feira, março 30, 2007

Das histórias.

O absurdo do teu toque transversal
Quando eu andava em versos plenos de geada.
Teu sorriso espesso derretia a madrugada,
A inenarrável criação da primavera,
conjugando em pressa
verbos antes do pudor.

Fui tua, simplesmente,
Enquanto teus dedos percorreram todas as estações
No meu corpo enclausuradas.
Teu beijo trouxe um sol,
de vermelho lento, dor quase doce,
Derretendo qualquer dureza em minha boca.

Acordei de qualquer dia assim,
Intensa:
Pelo irreal dos teus sentidos
Fui amada.

segunda-feira, março 26, 2007

Rompantes.

Arranca de mim toda a certeza
Descola meus pés do chão:

Hoje eu quero flutuar
sem dimensão exata nesse verso.

Costura essas estrelas no olhar noturno
Varre os meus passos desse chão:

Por hoje.

Exige apenas que eu flutue,
Conduza-me calando meu não.
Desposa-me poema,
Faz-me um filho
Em uníssono soneto.

Cega-me hoje.
Deixa-me enxergar apenas por tuas mãos
E que os nossos medos
Não frutifiquem distâncias desesperadas.

Por hoje.

Amanhã sacudo o sono dos cabelos
Esfrego esse sonho entre os meus dedos,
Vou prá rua e bebo a realidade.

quinta-feira, março 22, 2007

Do pôr-do-sol.

Plena.
Singular.
Amanhecida em vermelho de bordar sorrisos.
Eu ouso vôo
E o horizonte me abraça, claro.
Eu já não sou mais a mesma,
eu me remonto a cada verso
numa melodia diversa,
borrada de outras cores.
Ou não poderia sê-lo.

O vermelho me veste de paisagem
E se põe nas pupilas,
como se eu fora a noite.

É serena que me avança a madrugada.

segunda-feira, março 19, 2007

Poetica mente.

Abriu a linha com seu passo tímido
E engravidou a rima com seu verso ríspido.

Lançou sobre o soneto sua idéia ilógica
Despiu toda a gramática com avidez inóspita.

Adormeceu ouvindo o som de um poema lúdico
Sonhou a poesia como uma pausa sísmica.

E sepultou no peito trágico
O seu amor irônico.


(**Inspirado em "Construção" de Chico Buarque de Holanda)

sexta-feira, março 16, 2007

De ser.

Não serei tua distância,
Tua ausência.

Não serei lágrima manchada
Sobre uma fotografia desbotada.

Eu apenas serei se marcar as tuas retinas
Estampando para sempre de azul as pupilas
Gravando estrelas de fogo no sal fundo dos olhos.

Eu serei para sempre se teus pêlos lembrarem meu tom
E meu corpo quedar tatuado na tua pele, tua entrega.
Eu serei uma parte construindo a tua célula e serei sempre,
se ao meu nome teu arrepio fizer ondas, buscando-me.

Eu não serei queda para as sombras que te seguem.
Eu seguirei o rumo, guiando teu sorriso onde o caminho
ausentar flores.
Eu não serei apenas.
Serei tão somente, ousando eternidade,
e não serei só,
que é a poesia quem embala minhas dores.

Eu serei a linha que abraça a geometria do teu verso.

terça-feira, março 13, 2007

Amortecimento.

Amortecimento.
Amor-teci-mento.
Amor-te-cimento.
Amor- tecimento.

Faz sentido.

E acho que vou trocar meus sonhos
por um gole, um trago e uns beijos baratos.
Vou ver se arranco da insônia teu nome
E ante, após, até qualquer tolo pronome,
vou riscar essa mágoa se nessa letra couber.

É que só o tolo não desiste
e o talvez que persiste
já me ardeu demais.

Amor, te cimento.
E vou indo. Até mais.

sexta-feira, março 09, 2007

Da tempestade.

Eu queria tanto que você me amanhecesse
E livre de tempestades ancorasse teu azul
Em minhas terras, meu porto, minha espera.

Mas se vier com cheiro de mar e relâmpagos
Eu estendo a ti meus remansos e te ofereço um sol
Para aqui refazer o cansaço, o desgaste, o juízo.

E se vier com sede eu te dou a beber minha boca
Te hospedo em meu corpo, minha alma
E faço uma renda do som da chuva
para agasalhar teu sono.

Eu serei tua pausa.

terça-feira, março 06, 2007

Planando.

E azul de vôo
eu tomei carona no vento.
Pousada no porto dos meus olhos,
A entrega reunida brilhando em sol.
Eu hoje acordei nota clara,
De sinfonia passarando o acontecer.

Uma brisa breve,
Uma vida quase leve,
Que me vele, revele no contorno
Do sorriso que estampado em mim, presença.
As folhagens agitadas à beira
Do azul que precipita a paisagem.

São tantas coisas formando renda
E eu enredada quero mais
Desse tecido que suave me recubra
De nudez e alma bordando a paz.

quinta-feira, março 01, 2007

Conjugal

Eu, passo.
Tu, o passado.
Ele, a passeio.

Nós descompasso,
Vós, impassíveis
Eles, passageiros.